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| Jane Asher e John Moulder Brown em cena de Deep End (1970), de Jerzy Skolimowski |
Ninguém me perguntou, mas aqui estão os filmes que mais gostei de ver em 2022 (dos que me lembro que assisti). Não preparei uma lista de "melhores do ano", até porque não consigo acompanhar muito os lançamentos e nem tenho base para comentar sobre isso. Sei que já passamos da metade de 2023 (!), mas só agora consegui terminar essa postagem (!!!).
Trata-se uma lista sincera e despretensiosa, de quem curte cinema por prazer. Isto é, não tenho formação e nem trabalho na área. Não sou jornalista e nem crítica. Então, embora eu aprecie a sétima arte, não tenho domínio sobre as questões mais técnicas. Apenas assisto como espectadora comum (e de vez em quando dou uns pitacos no Twitter sobre o que vi). No máximo, posso dizer que meu olhar é o de uma historiadora e profissional de Letras. Sempre digo que sou uma "curiosa" em relação ao cinema: adoro ler e pesquisar informações sobre, mas sem deixar de reconhecer as minhas limitações.
E, sim, meu processador é lento e eu demoro a assistir/ler/ouvir coisas lançadas no ano corrente. Provavelmente, o que saiu em 2022 verei mais em 2023 e nos anos seguintes. E assim vou indo. Na verdade, eu adoro descobrir "novidades" no meio de coisas antigas, isto é, adoro voltar décadas atrás e descobrir um filme obscuro, uma banda pouco falada mas que tem um som incrível ou um livro que ninguém mais se lembra. Talvez seja meu vício de historiadora.
Os critérios desta lista: filmes que vi pela primeira vez em 2022, não necessariamente lançados nesse ano; apenas um filme por diretor (do contrário, diretores como David Lean e Xavier Dolan poderiam ter entrado outras vezes). A lista está aproximadamente por ordem de preferência, mas as posições dos quatro primeiros, por exemplo, poderiam estar alternadas, pois gostei muito dos quatro. Sobre os cinco primeiros, faço uma apresentação um pouco mais detalhada. Já para os títulos seguintes apenas cito os nomes e dados principais, como ano, país de origem e diretor.
Meus filmes favoritos em 2022:
1. Ato final (Deep End, 1970, Reino Unido/Alemanha)
Direção: Jerzy Skolimowski
Esse filme do polonês Jerzy Skolimowski, lançado há mais de 40 anos, foi o que mais me capturou no ano passado. O longa acompanha a trajetória do jovem de 15 anos Mike (John Moulder Brown), que consegue seu primeiro emprego em uma casa de banhos. Logo, Mike passa a nutrir uma paixão pela colega de trabalho Susan (Jane Asher), uma mulher alguns anos mais velha que ele e que mantém relacionamentos com outros homens.
O desejo de Mike por Susan, inicialmente algo pueril, gradativamente se torna obsessivo e o filme tem uma virada surpreendente - mas que, quando olhamos em retrospecto, de certa forma, já era prenunciada por elementos visuais apresentados na tela. Assim, nada nesse longa é aleatório - do uso das cores nos cenários e objetos, especialmente a cor vermelha, à trilha sonora, com destaque para a canção de "But I Might Die Tonight", de Cat Stevens/Yulsuf - tudo contribui para a construção da narrativa.
Ambientado na Swing London, o trabalho de Jerzy Skolimowski é um retrato da juventude, da moda, da música e, especialmente, da busca por liberdade sexual da época. Além disso, situado na transição dos anos 1960 para o 1970, o filme também aponta, parafraseando John Lennon, como o sonho hippie da paz e do amor estava acabando. Enfim, um filme que merece ser visto muitas vezes!
2. Aftersun (2022, Reino Unido)
Direção: Charlotte Wells
Aftersun foi o último filme que assisti no ano passado (de maneira, digamos, "não exatamente legal", se é que me entendem) e me causou uma forte impressão. Depois, já início de 2023, revi o longa duas vezes, no streaming e no cinema. O filme da jovem cineasta Charlotte Wells é como um quebra-cabeça incompleto, tentamos encaixar novas peças a cada vez que o assistimos, mas parecem sempre faltar outras... E acho que esse é seu maior mérito.
Há certo mistério sobre Calum (Paul Mescal), o pai de Sophie (vivida por Frankie Corio na infância e por Celia Rowlson-Hall já adulta). Dúvidas que, ao final da projeção, continuam em aberto. A filha, a partir de suas memórias e dos vídeos que gravou em uma viagem de férias para a Turquia na infância (talvez a última que tenha feito com ele?), tenta compreender o pai.
As paisagens de uma ensolarada Turquia são belíssimas, o mar e o céu de um azul magnífico! O longa é também recheado de músicas, especialmente do Britpop noventista. Há uma muito comentada (não sem razão) bela cena com "Under Pressure", de Queen e David Bowie. Mas a sequência que mais gostei foi aquela em que ouvimos "Tender", do Blur. Como o meu relacionamento com o meu pai é também marcado pela música - muitas bandas de que gosto aprendi a ouvir com ele - e fui criança durante os anos 1990, o filme me pegou de jeito.
3. Matthias & Maxime (2019, Canadá)
Direção: Xavier Dolan
Um filme sobre a amizade, sobre a aceitação da própria sexualidade, sobre os dilemas que enfrentamos ao ingressar na vida adulta (trabalho, universidade, casamento, família etc.). Dirigido, roteirizado e protagonizado pelo canadense Xavier Dolan (que ainda não tem 35 anos, mas já possui uma filmografia invejável), é um dos seus filmes mais contidos, em termos de elementos visuais, como uso de cores fortes e câmera lenta. Não que tais recursos não ocorram aqui em determinados momentos, mas eu diria que em Matthias & Maxime Dolan é menos "barroco" que em outros filmes seus, como Les Amours Imaginaires (2010) e Laurence Anyways (2012). Talvez seja o filme de Dolan que mais gostei até agora.
A trama acompanha um grupo de jovens, amigos desde a infância, centrando-se na relação entre dois deles, Matthias (Gabriel D'Almeida Freitas) e Maxime (Dolan), que são mais próximos. Matt está decolando na empresa onde trabalha e prestes a se casar e Max, que vive uma relação complicada com a mãe e parece mais perdido, decide se mudar para a Austrália. Um dia, Matthias e Maxime viajam para a casa de campo da família de um dos outros amigos, Rivette (Pier-Luc Funk). Lá, a irmã deste, Ericka (Camille Felton), estudante de cinema, está decidida a fazer um curta. E o que há nesse filme? Entre um emaranhado de cenas, há o registro foi por ela de um beijo entre Matt e Max. Depois desse beijo, a relação entre os dois amigos, que antes parecia harmônica, fica abalada e eles começam a se questionar sobre seus sentimentos, seus desejos e sobre suas vidas.
4. Passagem para a Índia (A Passage to India, 1984, Reino Unido/Estados Unidos)
Direção: David Lean
Último filme do mestre David Lean, que ficou um bom tempo sem filmar após o fracasso de A filha de Ryan (Ryan's Daughter, 1970), Passagem para a Índia é baseado no romance de mesmo nome de E. M. Forster. Este filme de Lean não chega a ser um épico tão grandioso quanto outras obras suas, como Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) e Dr. Jivago (Doctor Zhivago, 1965), mas, como de praxe, traz o apuro técnico do diretor, com planos mostrando belas paisagens, todo o cuidado com a reconstituição de época e a trilha sonora imponente de Maurice Jarre. O longa conta também com ótimas atuações, especialmente de Judy Davis, Victor Banerjee e da veterana Peggy Ashcroft, tendo esta última recebido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.
Ambientado na década de 1920, Passagem para a Índia acompanha a ida para a Índia da jovem Adela Quested (Judy Davis) e da Sr.ª Moore (Peggy Ashcroft). Lá vive o filho da Sr.ª Moore, Ronny Heaslop (Nigel Havers), que ocupa um cargo de magistrado a serviço do império britânico e é noivo de Adela. A Sr.ª Moore e Adela tornam-se amigas do Prof. Fielding (Richard Fox), diretor escolar que vive há anos na localidade, e do Dr. Aziz Ahmed (Victor Banerjee), um médico indiano. Um dia, Aziz leva as duas mulheres para um passeio em um sítio local, as Cavernas de Marabar. Em dado momento do passeio, Adela se perde de Aziz nas cavernas e depois é achada ferida por ingleses na estrada. Aziz, então, é acusado de tentativa de estupro. O julgamento causará um conflito entre indianos e ingleses na região. O longa aborda, assim, entre outras questões, o imperialismo, desnudando os conflitos raciais e de classe na Índia ocupada por britânicos.
5. O homem ideal (Ich bin dein Mensch, 2021, Alemanha)
Direção: Maria Schrader
É difícil enquadrar o filme alemão em um gênero, percebemos nele uma mistura de ficção científica, romance e drama. O longa acompanha os dilemas vividos por Alma (Maren Eggert), que, em troca de financiamento para sua pesquisa na universidade, aceita participar de um experimento em que deve conviver com o robô Tom (Dan Stevens), desenvolvido para ser o seu parceiro amoroso ideal. Levantam-se, então, discussões sobre o que nos torna humanos, a nossa relação com as tecnologias, o envelhecimento, o afeto e o prazer... Ainda tem Dan Stevens falando alemão!
6. Licorice Pizza (2021, Estados Unidos)
Direção: Paul Thomas Anderson
7. Munique (Munich, 2005, Estados Unidos)
Direção: Steven Spielberg
8. Mustang: alma indomável / Rédeas da redenção (The Mustang, 2019, Estados Unidos/França /Bélgica)
Direção: Laure de Clermont-Tonnerre
9. Nada de novo no front (Im Westen nichts Neues, 2022, Alemanha/Estados Unidos)
Direção: Edward Berger
10. Um mergulho no passado / A Bigger Splash (2015, Itália/França)
Direção: Luca Guadagnino
11. Esteros (2016, Argentina/Brasil)
Direção: Papu Curotto
12. A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly (True History of the Kelly Gang, 2019, Austrália/Reino Unido)
Direção: Justin Kurzel
13. Nos corredores (In den Gängen, 2018, Alemanha)
Direção: Thomas Stuber
14. Que mal eu fiz a Deus? (Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?, 2015, França)
Direção: Philippe de Chauveron
15. Depois a louca sou eu (Brasil, 2021)
A expressiva presença da Alemanha na lista me surpreendeu! E uma observação final é a de que, realmente, preciso ver mais obras de países da América Latina, Ásia e da África.
Veremos como será a lista de 2023. Acho que agora consigo manter um melhor acompanhamento do que assisti com o Letterboxd.
















