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| Capa de O capricórnio se aproxima, de Flavio Cafiero. |
Como disse há alguns dias, não fui das melhores leitoras no ano que passou. Li bem menos do que gostaria e não fiz, como pretendia, um registro das leituras. Contudo, alguns livros foram tão interessantes que consigo ainda puxar pela memória duas ou três coisas sobre eles.
É o caso de O capricórnio se aproxima, novela publicada em 2014 pelo escritor carioca Flavio Cafiero. Lançada somente em formato digital, integra o selo JOTA, que propõe desafios relativos a aspectos linguísticos e formais aos autores para a composição de seus textos. Um das restrições propostas ao escritor é das mais difíceis, penso eu, do ponto de vista linguístico: não usar adjetivos. Apesar de o adjetivo não ser o núcleo do sintagma nominal e este tipo de sintagma aparecer em posição de sujeito na oração, no caso das orações com verbo de ligação a coisa se complica um pouco, já que o sintagma adjetival (que tem, como o nome indica, o adjetivo como núcleo) costuma ser o predicativo. Tive a sensação de ver passar um ou outro adjetivo durante a leitura, mas não me detive nesses pormenores.
Voltando a O capricórnio se aproxima, a narrativa acompanha o cotidiano do taxista João, mostrando suas relações familiares, num vaivém entre a sua infância e a vida adulta. Vivendo no Rio de Janeiro pouco antes da Copa do Mundo de 2014, João está às voltas com o uso de GPS e aplicativos e tentando aprender inglês para atender aos turistas. Além dos desgastes com o trabalho e com o casamento - João desconfia que a esposa o traiu com um vizinho jovem -, outras divergências e situações familiares emergem ao longo do texto. O taxista lembra da irmã, que foi embora de casa na juventude para viver um relacionamento com uma amiga, para desagrado dos pais, que sempre fizeram comentários homofóbicos. Ele precisa também lidar com a doença do pai idoso, que, de acordo com a linguagem cifrada de sua família, virou uma pessoa "de capricórnio". Interessante, ainda, é a dinâmica entre João adulto e o amigo Souza, que dirige o seu táxi no contraturno.
Os capítulos são curtos - até por conta de outra exigência do desafio, de que não deveriam ultrapassar 500 palavras - e se desenrolam de forma bastante ágil - talvez por não existirem aqui tantos floreios, dada a ausência dos adjetivos, e os períodos tenderem a não ser longos -, acompanhando a rotina e as recordações de João, enquanto ele se desloca pelos bairros do Rio, como Copacabana, Tijuca, Vila Isabel... Além das restrições da JOTA, O capricórnio se aproxima brinca com a linguagem ao tratar de expressões que os adultos usam como eufemismos para assuntos que as crianças não podem ouvir. Assim, ser uma pessoa "de capricórnio", a expressão de maior destaque no livro, o leitor não tardará a descobrir que não é algo que se refere propriamente ao signo astrológico.
Há diversas outras expressões que adquirem sentidos inesperados no texto, conferindo-lhe ironia e humor, como "vendedor de enciclopédia" e "trabalhar no banco", que se referem à homossexualidade, e "fazer aula de violão" e "comer pudim de pão", que indicam sexo. Essas enigmáticas expressões usadas pelos adultos para ocultar de João assuntos que consideravam inadequados para crianças ou para disfarçar seus preconceitos continuaram a reverberar na mente do homem de meia-idade, ainda que agora ele já entendesse perfeitamente o seu significado.
Para quem se interessar, é possível encontrar a obra de Cafiero na BibliOn, a Biblioteca Digital Gratuita do Estado de São Paulo.
