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domingo, 4 de julho de 2021

Notas de leitura #1: Diário em tópicos: guia prático, de Rachel Wilkerson Miller

Em geral, não me deixo influenciar pelos modismos ou "tendências" difundidos nas redes sociais, como os relacionados à culinária (fotos e vídeos com receitas mirabolantes passando pela sua timeline), os vídeos de maquiagem e cuidados com a pele, a onda de livros de colorir para adultos (com direito a lives de pintura!), entre vários outros. O meio booktuber também está repleto de modismos literários, especialmente relacionados às obras classificadas como "YA" (Young Adults) e séries de livros. Há quem curta, e eu respeito, mas dispenso. Esses modismos tendem a reforçar hábitos de consumo e promovem uma exposição muitas vezes desnecessária das pessoas, ao meu ver. 

Porém, apesar de todas as reservas que tenho, devo confessar que um modismo me fisgou: é o dos vídeos e imagens sobre planner e bullet journal. Trata-se de cadernos de organização de rotina que têm características um pouco diferentes das tradicionais agendas, podendo mesmo, no caso do bullet journal (ou simplesmente bujo, ou dot journal ou, ainda, traduzindo, diário em tópicos) ter elementos dos centenários diários. Acho bem interessante a proposta do bullet journal, um método de organização bastante flexível e que permite a quem o mantém exercitar criatividade ao criar layouts para as páginas. Acredite, há canais apenas sobre isso no YouTube!  

É bem verdade também que, antes de conhecer mais sobre esses planejadores, eu já gostava muito de blogs e programas de TV sobre organização e decoração de ambientes. Acho que os bujos e planners são apenas uma outra vertente de organização. E talvez o que me atraia nesse tipo de conteúdo é justamente o fato de eu ser bastante desorganizada... Ou melhor, eu sempre digo que "minha bagunça é organizada", pois mesmo sendo tudo meio caótico, eu (quase) sempre consigo me achar. 

Pois bem, já conhecendo um pouco sobre bullet journal, mas fugindo dos meus hábitos de leitora, adquiri recentemente o livro Diário em tópicos: guia prático (Dot Journaling: a pratical guide), de Rachel Wilkerson Miller. Editora-chefe de estilo de vida do site Buzzfeed, em Nova York, a jornalista oferece no volume sua visão sobre a técnica desenvolvida por Ryder Carroll, autor de O Método Bullet Journal.

Em um texto claro e de estilo informal, Miller conta inicialmente sobre sua experiência pessoal com diários e agendas, desde a infância, e depois com blogs, até conhecer o bullet journal. Em seguida, a autora busca definir o que é um diário em tópicos, para, ao longo dos capítulos, explorar diversos elementos e layouts de páginas que podem ser utilizados em um caderno desse tipo. Para Rachel Miller, o diário em tópicos é uma combinação de três gêneros: diário, agenda e lista de afazeres: "as agendas e listas de afazeres costumam focar no que você vai fazer, e os diários, no que já fez. Mas combinar tudo isso nos dá um panorama completo de quem somos" (MILLER, 2019, p. 14, grifos da autora).

Assim, o diário em tópicos tende a ser desenvolvido de forma que quem o mantém consiga organizar em um único local suas atividades profissionais, acadêmicas, domésticas, pessoais, financeiras, de saúde, etc. de acordo com suas necessidades e de uma maneira que lhe seja funcional e faça sentido. Miller parece conversar com o leitor, dando dicas sobre como iniciar um dot journal, sobre materiais a utilizar, sobre como reservar um tempo para escrever, sempre ressaltando o caráter "adaptável" da técnica (cf. MILLER, 2019, p. 17). 

Embora frise que não há regras ou exigências, a autora recomenda utilizar um caderno novo, em branco, não importa o tamanho ou modelo - seja sem pauta, pautado, quadriculado ou pontilhado, esse último, o formato preferido da maior parte dos que utilizam o bujo -, mas que seja fácil de carregar ou ter acesso. Como explica Miller, "o mais importante é não ter nenhum tipo de texto impresso que lhe diga o que fazer e onde escrever (...) O problema das agendas e dos diários pré-impressos é que eles não podem prever suas necessidades com exatidão nem acomodá-las direito (MILLER, 2019, p. 12, grifos da autora). 

No entanto, mais do que apenas pensar no diário em tópicos como forma de organização de rotina, um aspecto bastante positivo da obra é o fato de a autora sempre mencionar a importância do hábito diário de escrita e nunca perder de vista a relação desse tipo de registro com o diário, gênero textual que existe há séculos. Há nas páginas entre os capítulos citações de escritores (Franz Kafka, Virgina Woolf), ensaístas (Susan Sontang) e até personagens de ficção conhecidos por seus diários, como Mina, do Drácula de Bram Stoker.  

Ao longo dos capítulos, Rachel Miller cita também exemplos históricos de uso de diários - alguns conhecidos, outros não - como o diário de Mary Vial Holoyke, uma mulher que viveu nos Estados Unidos em fins do século XVIII e registrou, em forma de tópicos datados, vários acontecimentos cotidianos de sua localidade - em seu relato, chama a atenção a grande mortalidade infantil da época (MILLER, 2019, p. 101-103); o caso de Anne Frank relatando como era viver escondida durante o nazismo (MILLER, 2019, p. 113-115); os diários de viagem de Charles Darwin, entre outros. Para a jornalista, 

Escrever sobre si mesmo e sua vida (mesmo que só anotações rápidas) é um imenso privilégio, e esse hábito pode ser incrivelmente libertador. No fundo, um diário é uma declaração de que nossa voz importa. Se a sociedade convenceu você do contrário - de que exprimir suas necessidades é egoísmo, de que sua principal função é cuidar dos outros -, então declarar sua verdade pode ser um ato poderoso (MILLER, 2019, p. 20).
 

Reforçando esse aspecto de valorização da escrita, no final do livro há páginas pontilhadas em branco, para que o leitor possa pôr em prática ou rascunhar ideias para seu próprio diário em tópicos. A versão de Diário em Tópicos que adquiri, inclusive, vem em uma caixa, com um caderno pontilhado "de brinde".

O livro traz muitas ilustrações, que demonstram os exemplos descritos pela autora. Ressalte-se o ótimo trabalho de tradução e adaptação das imagens e do projeto gráfico na edição brasileira, da editora Sextante. Diário em tópicos: guia prático proporciona uma leitura fácil e rápida, indicada para quem tem interesse em organização pessoal, gosta de agendas, planners e materiais de papelaria, e, ainda, para quem gosta de trabalhos manuais e artes gráficas. 

É um tipo de livro que poderia facilmente descambar para o estilo autoajuda, mas Rachel Wilkerson Miller consegue contornar isso e propõe uma obra focada em exemplos práticos da técnica do bullet journal. Em certo sentido, pode-se dizer que este guia é uma obra didática, já que indica procedimentos para registro de hábitos e atividades rotineiras e como fazer diversos modelos de quadros, listagens, títulos, páginas. Acredito apenas que quem já está familiarizado com esse gênero de escrita e planejamento possa achar o livro básico, sem muitas novidades. Mas para iniciantes, como eu, os elementos explorados por Miller propiciam muitas ideias para diários próprios.


Referência:

MILLER, Rachel Wilkerson. Diário em tópicos: guia prático. Tradução de Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Sextante, 2019, 240 p. (Edição especial com caderno pontilhado).

Preço médio: R$ 25,00 a R$ 80,00. 


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Doze livros para ler em 2021

Muitos blogs e canais no YouTube sobre livros costumam divulgar no início de cada ano uma listagem com os livros que o blogueiro/booktuber pretende ler. Gosto dessa proposta e decidi adotá-la n'O Gato na Estante também. Como estamos na primeira quinzena de janeiro, ainda está em tempo de preparar uma lista do tipo.

A maior parte das pessoas elabora listas com dez ou doze livros, então optei aqui por uma dúzia de obras. Mas minha meta de leitura pessoal para 2021 é um pouco maior: ler 25 livros ao longo do ano. Acho que essa é uma meta possível para mim, considerando as minhas outras atividades semanais. Dá uma média de pouco mais de dois livros por mês, o que é bastante razoável se pararmos para pensar. Sei que há pessoas que leem muito mais, mas eu sou leeentaa e prefiro pensar em um projeto de leitura que eu seja capaz de cumprir satisfatoriamente. 

Além disso, registro aqui que a ideia de metas/objetivos de leitura anuais - algo que, aliás, está presente em projetos de pesquisa - é uma forma de ajudar a me organizar melhor como leitora, como estudante e como pesquisadora, nada tem a ver com uma perspectiva empresarial/mercadológica. Isto é, não quero ficar "batendo metas", ler simplesmente para atingir um número "x" de livros lidos. Desejo ler de forma prazerosa, sem pressa e aproveitando o máximo de cada obra.

Pois bem, para elaborar essa lista especificamente, pensei em doze títulos que queria ler há muito tempo e que já possuo aqui nas estantes. São todas obras literárias, quase todas em prosa, a maioria romances e que nunca li antes. Quero ler algumas outras coisas, especialmente relacionadas à música, mas como são obras biográficas e jornalísticas, não as incluí nessa lista. Também não incluí obras historiográficas, com as quais lido mais diretamente, e nem livros que pretendo reler.

E nada de estímulo ao consumismo: vamos tratar de ler livros que já temos, dando-lhes um destino muito mais interessante do que ficar simplesmente acumulando poeira nas estantes, certo? E, sim, eu sou bem arcaica e prefiro o livro em papel, formato físico. 

Sem mais delongas, eis os doze escolhidos. 


Doze livros para ler em 2021:

1) Emma, de Jane Austen;

2) Uma vida em segredo, de Autran Dourado;

3) Prece a uma aldeia perdida, de Ana Miranda;

4) Laços de família, de Clarice Lispector;

5) Dentro de mim faz sul seguido de Acto sanguíneo, de Ondjaki;

6) A manta do soldado, de Lídia Jorge;

7) Meu marido, de Livia Garcia-Roza;

8) O tigre branco, de Aravind Adiga;

9) A gloriosa família: o tempo dos flamengos, de Pepetela;

10) Os passos perdidos, de Alejo Carpentier;

11) Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer;

12) Jane Eyre, de Charlotte Brontë.

Sobre a composição da lista, há nela seis mulheres e seis homens como autores. E, no que diz respeito às nacionalidades dos escritores, há quatro brasileiros (Ana Miranda, Autran Dourado, Clarice Lispector e Livia Garcia-Roza), três do Reino Unido (Jane Austen, Charlotte Brontë e Chaucer), dois angolanos (Pepetela e Ondjaki), um cubano (Carpentier), uma portuguesa (Lídia Jorge) e um indiano (Adiga). Estou lendo traduções das obras que são originalmente em inglês e espanhol.

Importante destacar que, apesar de eu os ter enumerado na lista acima, não defini uma ordem para ler os doze livros. Não há um livro para um mês específico, a ideia é que eu consiga ler esses doze títulos ao longo do ano, sem maior imposição de um prazo ou ordem definidos (ok, há um prazo geral de um ano, mas não há rigidez na condução das leituras). Essas doze obras serão contabilizadas na meta total de 25 livros do ano. 

Então, mãos à obra! Será que consigo? Conforme as leituras forem acontecendo, pretendo fazer postagens sobre os livros no blog.

E convido a quem estiver lendo esse post que também participe do desafio e pense em doze livros para ler em 2021!