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| Capa da edição brasileira do romance O círculo dos Mahé, de Georges Simenon. |
O belga Georges Simenon se notabilizou como um dos mais prolíficos e populares escritores do século XX, em grande medida, devido ao sucesso de seus romances policiais, muitos deles protagonizados pelo Comissário Maigret, seu personagem mais famoso. Entretanto, uma faceta menos conhecida, mas, a meu ver, mais interessante do autor é aquela que Simenon revela nos seus chamados "romances duros" (romans durs).
Nesses romances, que geralmente não são tramas policiais - ainda que O quarto azul, por exemplo, possa ser considerado também policial -, Simenon desenvolve narrativas mais realistas e psicológicas. Não são romances duros no sentido de serem obras difíceis de ler. Ao contrário, o escritor tem um estilo de escrita muito claro e direto. São obras nas quais Simenon se dedica a compor narrativas livres das convenções do romance policial. Eu diria também que são duros por serem narrativas que revelam uma atmosfera social sufocante e melancólica. Quase sempre as histórias se desenrolam em cidades pequenas, com famílias de classe média. Seus protagonistas tendem a ser pessoas angustiadas, submetidas a rotinas monótonas, mas que, em dado momento, confrontam-se com situações que os farão enxergar de forma diferente aspectos de suas existências. Assim, eles experimentam um grande conflito interno, pois quase sempre o que desejam contrasta com a vida que efetivamente levam.
O círculo dos Mahé (Le Cercle des Mahé, publicado originalmente em 1946), sobre o qual falo aqui, é um desses romances. Desconfio que seja dos mais obscuros de Simenon, já que as traduções para o inglês e o português são relativamente recentes. Na narrativa, François Mahé é um médico de 32 anos, que leva uma vida pacata e entediante. Tem um casamento sem nenhuma paixão com Hélène e dois filhos pequenos. Sua mãe, na casa de quem ainda mora, é extremamente controladora, tendo escolhido sua esposa e também imposto a François seguir a prestigiosa carreira de médico. A pequena cidade onde vive, Saint-Hilaire, é cheia de pessoas aparentadas - o que se nota nas fachadas das lojas, em muitas das quais o sobrenome Mahé figura -, e circulam muitas histórias sobre seus familiares, como seu pai, que François perdeu quando ainda era bem pequeno. O médico se sente preso nesse círculo, sempre obrigado a fazer o que esperam que ele faça - daí o título da obra.
Contudo, as coisas começam a mudar quando os Mahé viajam de férias para a ilha de Porquerolles, no Mediterrâneo. Um dia, enquanto está pescando, François é chamado para atender a uma enferma, já que o médico local estava fora. Ao chegar na moradia, um galpão do exército ocupado pela família, a mulher, mãe de três crianças, já havia falecido. A filha mais velha, Elizabeth, que traja um vestido vermelho, chama a atenção do médico naquele ambiente extremamente pobre e sujo. O negligente marido da falecida e pai das crianças, Frans Klamm, um ex-legionário visto com desconfiança pelos locais, está também longe da ilha, gastando seu pouco dinheiro em bebedeiras, e precisa ser encontrado para cuidar do sepultamento.
A partir daí, François desenvolve uma fixação pela figura da garota em seu vestido vermelho. Ele não chega a abordá-la e nem conversar com ela, mas gosta de observá-la, saber de Elizabeth. E, nos anos que se seguem, sempre arranja um pretexto para retornar à localidade e ver a garota. Não é exatamente uma paixão ou desejo sexual pela jovem, mas um sentimento platônico e um fascínio por sua imagem, que representa algo diferente da vida cinzenta que o médico leva em casa. A ilha também o atrai: tudo é desafiador e mais desordenado em Porquerolles, o calor é intenso e nauseante e até os peixes são mais difíceis de serem fisgados, diferentemente da apatia de seu casarão em Saint-Hilaire, com seu jardim gradeado.
Elizabeth, que continua a usar o seu (talvez único) vestido vermelho, passa a cuidar dos irmãos menores e da casa com grande zelo, o que faz com que os ilhéus admirem a determinação da jovem. No terceiro ano que retornam a Porquerolles, os Mahé levam um sobrinho de Hélène, Alfred, rapaz de 19 anos prestes a ir para a universidade. É então que se dá o ponto mais crítico, do ponto de vista ético, da narrativa: François persuade o rapaz a se envolver com Elizabeth. O médico ouve, com um misto de interesse e raiva, os relatos de Alfred sobre suas investidas. Até que, em uma de suas visitas, Alfred faz sexo com Elizabeth - ao que tudo indica, uma relação forçada. François, de início, chega a sentir certo prazer ao saber da violação da jovem, pois acredita que sua "desonra" seria uma forma de macular a imagem que tem da moça e, assim, dar fim ao sentimento que nutre por ela. Porém, a consciência desse ato - que, afinal, foi por ele próprio orquestrado - só o consome ainda mais.
"Uma obsessão", diz Balzac, citado por Alberto Manguel, "é um prazer que atingiu a condição de ideia". E é isso o que Elizabeth representa para François.
Não estava sequer apaixonado. Se estivesse, o problema sem dúvida teria sido muito mais simples.
Era uma obsessão, eis a palavra. E aquilo tinha começado desde o primeiro dia, porém débil, insidiosamente, como as doenças incuráveis que só constatamos quando já é tarde para tratá-las.
(...)
Era tudo isso e muitas outras coisas mais, era a negação de sua vida, de tudo que tinha sido sua vida, da casa cinzenta, quadrada e severa como um jogo de construção, com buxos esculpidos por seu antecessor maníaco e um portão de ferro escuro, um homem gordo de trinta e cinco anos - pois agora ele tinha trinta e cinco anos - brincando de fazer roncar sua motocicleta ao longo dos caminhos, brincando de pescar, caçar perdizes ou coelhos, a negação de Saint-Hilaire e de duas mulheres costurando para ele o dia inteiro e avisando quando devia mudar de cueca.
(SIMENON, 2018).
A doença e a morte da mãe - que provavelmente era quem realmente prendia François em Saint-Hilaire - abalam o médico e ele vai se tornando uma figura cada vez mais alheia à família. François passa a beber frequentemente e só se sente melhor quando está na pequena ilha do Mediterrâneo, onde já é uma figura conhecida e estimada pelos locais. Elizabeth, que viria a se mudar com os irmãos para outra localidade e se tornaria uma costureira de boa reputação, continua a ser uma aspiração inalcançável para François. Sua crescente angústia e a sensação de se ver sem saída o levarão a tomar uma atitude que, finalmente, o fará se sentir livre.
Cabe destacar, ainda, como a pesca é um elemento importante ao longo de todo o romance: de maneira cíclica, a narrativa inicia e se encerra com cenas de pescaria. É significativo também que Hélène não goste de entrar no mar e nem de peixes de água salgada, assim como a mãe de François deixe de comer peixe, o que indica como as ações dessas mulheres se distanciam do que ele almeja. A corvina é o peixe que François, desde o início, tenta fisgar, mas demorará anos até que ele, enfim, consiga pegar uma; já o congro, o peixe comprido e bravo que se esconde em um buraco, talvez represente a própria ilha de Porquerolles, hostil e estranha.
Se comparado a outros livros de Georges Simenon, O círculo dos Mahé tem um ritmo mais lento e segue uma estrutura narrativa mais linear. O livro, contudo, ganha muita densidade no desenvolvimento de François Mahé, ao mergulhar em sua atormentada mente, revelando seus sentimentos, frustrações e sonhos.
Para quem tiver interesse, o romance está disponível na BibliOn, a Biblioteca Digital Gratuita do Estado de São Paulo.
Referência:
SIMENON, Georges. O círculo dos Mahé. Tradução de André Telles. São Paulo: Cia. das Letras, 2018.