domingo, 23 de novembro de 2025

3ª FLUFF: mais alguns novos livros nas estantes (!)

Cartaz da FLUFF 2025. 

Eu já deveria ter publicado essa postagem antes, mas, como vocês podem imaginar, sou uma pessoa leeenta, praticamente movida a manivela. Pois bem, no início de setembro, entre os dias 2 e 5, ocorreu a terceira edição da FLUFF, a feira literária da UFF - Universidade Federal Fluminense. O evento desse ano celebrou os 40 anos da editora da universidade, a EdUFF. A programação da feira, que aconteceu no campus Gragoatá, em Niterói, estava bem interessante, com atividades variadas

Uma pena que, nos dois dias em que lá estive, fui muito rapidamente e não consegui participar das atividades. No dia 3, dei uma passada no meu horário de almoço e no dia 5 fui na parte da tarde, após sair do trabalho. Basicamente, fui à FLUFF para comprar livros - como vocês podem imaginar. Mas gostaria de nas edições futuras da feira dispor de mais tempo, para desfrutar do evento, de fato.  

A editora da UNESP e a Lexikon estavam com descontos muito bons. O stand/mesa da EdUNESP foi o que mais me fez gastar meus poucos cobres: comprei três livros daquela coleção sobre revoluções, coordenada pela Emilia Viotti, mais dois da coleção de clássicos - Quincas Borba, de Machado de Assis, e Contos da Era do Jazz, de F. Scott Fitzgerald - e, lembrando do meu passado não tão distante assim de medievalista, O ano mil, de Henri Focillon. 

Acabou que não comprei nenhum da Lexikon, ainda que tenha ficado fortemente tentada a adquirir a nova edição da gramática de Cunha e Cintra, que estava sendo vendida pela metade do preço normal. Mas, na altura em que a vi, já havia estourado o meu módico orçamento. 

Também não foi dessa vez que levei para casa o livro sobre a rádio Fluminense, A Nova Onda Maldita + Aumenta que é rock 'n' roll, do jornalista Luiz Antonio Mello, publicado pela EdUFF. Mas, no caso deste, creio que terei outras oportunidades de adquiri-lo. Da EdUFF, os que levei foram Dramas, campos e metáforas, do antropólogo Victor Turner, e o Atlas Histórico-Econômico do Brasil no Século XIX - uma lindeza de atlas e baratíssimo (paguei apenas R$ 15,00 por ele). 

Além dos livreiros, havia também algumas pessoas vendendo artigos de papelaria e, é claro, que eu não poderia deixar de adquirir alguns itens. 

Eu até tento evitar comprar mais livros. Mas como resistir às promoções de uma feira?


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Organizando (ou tentando organizar) as minhas atividades em 2025

Agenda e planner sobre a mesa.
Agenda e planner sobre a mesa para as anotações do dia.

Não sou lá das pessoas mais organizadas, mas tenho percebido que ao menos um pouco de acompanhamento e disciplina ajuda muito nos processos de leitura, estudo e pesquisa, além da minha atuação no trabalho. É algo que tenho sofrido um pouco para aprender, mas acho que, gradativamente, tenho conseguido algum progresso. Além disso, sou uma pessoa um tanto antiquada: por mais que eu use computador e smartphone diariamente, não consigo ainda me adaptar muito bem a recursos como o Google Agenda e o Notion. Funciono muito melhor fazendo anotações manuais.  

Assim, duas ferramentas que têm me auxiliado bastante em minha rotina profissional nos últimos anos e que tenho usado com frequência cada vez maior são a agenda e o planner. Sim, a boa e velha agenda e um planner, ambos de papel. Além de ser útil para marcar os compromissos dos próximos dias, manter uma agenda anualmente também tem me auxiliado a fazer anotações diárias, especialmente de questões de trabalho - por exemplo, registro na agenda as anotações de reuniões das quais participo. 

Para 2025, eu havia comprado uma, mas depois ganhei outra do meu sobrinho. Então, o que fiz foi deixar uma agenda apenas para usar no trabalho e outra para coisas pessoais (saúde e alimentação, controle financeiro, aniversários, questões familiares e da casa etc.). O único "porém" é que as folhas de ambas as agendas têm gramatura baixa, semelhante às folhas de caderno, de forma que a tinta de marcadores e algumas canetas às vezes é transferida para o verso da folha, mas não é nada grave. Para mim, o tamanho ideal de agenda é de aproximadamente o de uma folha A5 (14.8 x 21.0 cm) ou de um caderno 1/4 (14.0 x 20.0 cm), no qual os dias úteis ocupem uma página inteira. Já tive modelos de tamanho menor (A6), mas que não me foram muito funcionais. 

Tentei usar somente planner há alguns anos, mas não consegui me adaptar muito bem ao sistema na época. Só que eu gosto muito das páginas mensais! Então, comprei o planner mensal da Tilibra, do modelo West Village, grampeado. É um planner bem simples e barato, que tem o que me interessa, as páginas mensais. Ele é bem fininho e tem tamanho colegial (um pouco menor que A4). A gramatura das páginas é de 90g/m², então, dá pra usar marcadores sem medo. Estou usando esse planner para anotar os compromissos de trabalho, como reuniões e tarefas que preciso entregar. 

Como levar uma agenda todos os dias na bolsa aumentaria o peso do que carrego - eu caminho um razoável trecho a pé até chegar ao meu local de trabalho -, quase nunca levo a agenda pessoal comigo, prefiro deixá-la em casa - e a agenda do trabalho deixei no meu setor. O que levo na bolsa de casa para o trabalho é o planner mensal, que é bem fino, e um bloquinho, para anotações rápidas e lembretes. Quando há algo importante, depois passo para as agendas. 

Para acompanhamento de estudos, comprei um bloco com páginas semanais e estou usando um planner antigo, que já possuía, para ter a visualização dos meses. Confesso que estou um pouco enrolada com esse sistema, às vezes esqueço de anotar as coisas. Não está funcionando muito bem, como com a agenda e o planner que adotei para as coisas de trabalho. Preciso repensar em como melhorar isso para o próximo semestre - na verdade, preciso parar de me inscrever em tantos cursos ao mesmo tempo...

Já para o acompanhamento de leituras, além deste blog semiabandonado, pensei em usar um caderno. A ideia é a de adotar uma organização (bem levemente inspirada) no método Bullet Journal, mas de forma que eu também tenha liberdade artística - para fazer desenhos, colagens etc. Esbocei layouts para as páginas, mas vergonhosamente deixei o caderno de lado. Pretendo retomá-lo ainda esse ano e postar aqui no blog como se dá esse processo de registro manual de leituras. 

Enfim, por enquanto, as coisas estão caminhando desta forma. Espero, em breve, retornar ao blog com novidades. 

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Notas de leitura #4: Clube de leitura dos corações solitários, de Lucy Gilmore

Capa da edição brasileira do romance Clube de Leitura dos Corações Solitários, de Lucy Gilmore.

A pessoa aficionada por música pop tenta achar referências e citações musicais em tudo. Quando o título Clube de Leitura dos Corações Solitários (no original, The Lonely Hearts Book Club) me apareceu como sugestão de leitura na BibliON, o meu primeiro pensamento foi, é claro: "Será que esse livro contém alguma referência aos Beatles?". Obviamente, associei o título do romance da norte-americana Lucy Gilmore ao icônico álbum da banda britânica, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Embora não exista nenhuma linha sobre a banda de Liverpool no romance de Gilmore - o que, é claro, foi uma expectativa louca da minha parte -, publicado em 2023 e editado no Brasil no ano seguinte pela Buzz, não posso dizer que sua leitura não tenha sido proveitosa. Ao contrário, Clube de Leitura dos Corações Solitários é um daqueles livros que nos traz conforto e sensação de bem-estar ao terminar de lê-lo. O obra, traduzida por Lígia Azevedo, contém uma mensagem positiva sobre a importância da amizade e da literatura em nossas vidas. Apesar de alguns clichês, o texto não soa excessivamente piegas.   

A narrativa tem como eixo central a relação entre a bibliotecária Sloane Parker e Arthur McLachlan, um professor de literatura aposentado frequentador da biblioteca pública onde ela trabalha, em uma pequena cidade de Idaho. Sendo um homem ranzinza e temperamental, Arthur é o terror dos funcionários da biblioteca, que sempre sofrem com suas ofensas. Até o dia em que Sloane o atende e se mostra uma adversária à altura dos ataques de Arthur, sempre com uma resposta na ponta da língua e usando de senso de humor para propositalmente contrariá-lo. Os dois ficam por semanas nesse jogo de gato e rato e, sem se darem muito conta disso, vão desenvolvendo uma estranha amizade. 

A partir de então, Arthur aparecia na biblioteca todo dia no mesmo horário: às dez e meia, exatamente meia hora depois que eu entrava. A precisão não me passou despercebida - nem a Mateo, que sempre fugia assim que via sinal do agente de sua ruína.

- Falei com a sua chefe - Arthur disse ao passar por mim, batendo os pés e a bengala de maneira marcada no carpete azul. - Avisei que, se você tentar criar um clube do livro, vou escrever uma carta à prefeitura e fechar este lugar. Sou capaz disso, fique sabendo.

- Minha nossa, sr. Mclachlan - declarei, ignorando a pilha de papéis que vinha separando para reciclagem e abrindo um sorriso fofo para ele. - Vai impedir o público de ter acesso a livros? O que vem depois? Fechar ONGS que doam alimentos? Proibir arco-íris de surgirem no céu?

- Argh!

Ao fim de dois meses, Arthur Mclachlan perdera todo o seu poder sobre mim. Quando Mateo o via chegando, ainda corria - ou, neste caso em especial, agachava-se atrás de mim - para se esconder, mas eu não. Eu era mais durona... e, o mais importante, tinha passado a gostar daquele senhor.

(GILMORE, 2024).  

Entretanto, após dizer umas duras verdades a Sloane em uma de suas visitas, Arthur deixa de aparecer na biblioteca. Embora tenha ficado chateada com as palavras de seu beligerante amigo, a jovem, preocupada com a saúde dele, decide pesquisar seu endereço no cadastro da biblioteca e visitá-lo. Ao descobrir o que Sloane fez, sua chefe a dispensa, pois acessar informação pessoal dos usuários contraria as normas do serviço. 

A demissão é um baque para Sloane, que realmente gostava do trabalho na biblioteca. Contudo, ela não se arrepende de sua atitude, já que, ao procurar Arthur, descobre que o idoso estava bastante adoentado e, sendo um homem solitário, precisando de ajuda. Sloane, que, até então, tinha uma vida sem muito entusiasmo, um noivado sem nenhuma paixão e um relacionamento ruim com os pais, encontra em Arthur um amigo que lhe permite viver com intensidade e ser ela mesma. Ainda que precise de uma pessoa para lhe auxiliar com sua saúde, Arthur não aceita contratar Sloane, agora desempregada, como sua cuidadora, mas sim como bibliotecária, para catalogar e organizar seus muitos livros espalhados pela casa. 

O noivo de Sloane, Brett Marcowitz, um homem metódico e controlador, obviamente, não concorda com esse arranjo. Embora não impeça a noiva de estar com Arthur, Brett não vê a hora de se casar e levar Sloane para Boston, do outro lado do país. Não que seja uma pessoa exatamente ruim, mas é extremamente incômodo que Brett não dê espaço e voz para Sloane em seu relacionamento, sob a desculpa de que estaria fazendo o melhor para ela. Já com a data do casamento se aproximando e com Brett e sua família decidindo tudo por ela, Sloane se vê incapaz de reagir àquela situação e deixar o noivo, que tem consciência de não amar. Além disso, pelo menos para mim, é difícil ter simpatia por um quiropraxista que gosta de ser chamado de doutor, orgulha-se de ter um Tesla e que tem uma família insuportável, a qual perceptivelmente se desfaz de Sloane por ela ser bibliotecária. 

Enquanto cuida de Arthur (ou melhor, de seus livros), Sloane tem a ideia de fazer algo que nunca conseguiu levar adiante enquanto estava na biblioteca: um clube de leitura. Aos poucos, outros personagens se juntam a eles nessa empreitada, para aparente desespero de Arthur - Maisey, a vizinha da frente que tem um péssimo relacionamento com a filha adolescente; Greg, o neto de Arthur, que inicialmente tem dificuldade em se reaproximar do avô; Mateo, que trabalhava com Sloane na biblioteca; e Nigel, um antigo amigo (e depois desafeto) de Arthur.  A casa do professor de literatura, antes vazia e melancólica, ganha movimento novamente e o coração do idoso vai, aos poucos, tornando-se menos endurecido.

Durante os encontros para debater os livros, os personagens vão descobrindo que as obras escolhidas para o clube -  Os Vestígios do Dia, O Clube da Felicidade e da Sorte e Anne de Green Gables - possuem muitos paralelos com suas vivências pessoais. Todos têm dificuldades em se relacionar com familiares, companheiros e amigos e em lidar com perdas, muitas vezes irreparáveis - como Sloane, que ainda criança perdeu a irmã; Greg, que há poucos meses perdeu a mãe; e Arthur, que perdeu a esposa e a filha. O papel da figura materna também é algo muito presente na narrativa, seja pela ausência das mães ou por sua superproteção, especialmente quando se consideram os relacionamentos entre Maisey e Bella, entre Mateo e Althea e entre Greg e Hannah. 

Do ponto de vista literário, eu diria que o texto de Lucy Gilmore é um tanto simplório em relação ao uso da linguagem, já que não se vale de muitos recursos expressivos e não deixa as coisas nas entrelinhas ou muito abertas a interpretações. É tudo bem direto, sem muita margem para deixar o leitor com dúvidas ou surpreendê-lo. É o tipo de livro no qual, em muitos momentos, você já sabe o que acontecerá nas páginas seguintes. Mas acho que isso ocorre com muitas obras da chamada YA (Young Adults, romances para "jovens adultos"), que, creio, é a categoria na qual Clube de Leitura dos Corações Solitários se enquadra. Contudo, o romance vai melhorando com o passar dos capítulos, à medida em que os personagens ganham um pouco mais de profundidade. Considero que a proposta de vários personagens narrando, que seria uma boa oportunidade para experimentar em termos linguísticos e formais, é subaproveitada por Gilmore, pois não se nota muita diferença entre os discursos dos diferentes narradores - a parte de Arthur, sem dúvida, é a melhor. 

Por fim, cabe destacar que o "trabalho da citação", para lembrar de Antoine Compagnon, que os agora amigos do clube do livro empreendem em conjunto na parte final da narrativa é tocante. Clube de Leitura dos Corações Solitários é um romance delicado, mas felizmente não muito água com açúcar, especialmente graças ao temperamento do Sr. McLachlan. 

A edição imprensa brasileira traz como brinde uma cartela de adesivos. Para quem tiver interesse, o livro também está disponível na BibliOn, a Biblioteca Digital Gratuita do Estado de São Paulo. 


Referência:

GILMORE, Lucy. Clube de Leitura dos Corações Solitários. Tradução de Lígia Azevedo. 1. ed. São Paulo: Buzz Editora, 2024, 358 p. 

Preço médio: R$ 45,00 a R$ 60,00.


sábado, 25 de janeiro de 2025

Notas de leitura #3: O círculo dos Mahé, de Georges Simenon

Capa da edição brasileira do romance O círculo dos Mahé, de Georges Simenon.


O belga Georges Simenon se notabilizou como um dos mais prolíficos e populares escritores do século XX, em grande medida, devido ao sucesso de seus romances policiais, muitos deles protagonizados pelo Comissário Maigret, seu personagem mais famoso. Entretanto, uma faceta menos conhecida, mas, a meu ver, mais interessante do autor é aquela que Simenon revela nos seus chamados "romances duros" (romans durs).

Nesses romances, que geralmente não são tramas policiais - ainda que O quarto azul, por exemplo, possa ser considerado também policial -, Simenon desenvolve narrativas mais realistas e psicológicas. Não são romances duros no sentido de serem obras difíceis de ler. Ao contrário, o escritor tem um estilo de escrita muito claro e direto. São obras nas quais Simenon se dedica a compor narrativas livres das convenções do romance policial. Eu diria também que são duros por serem narrativas que revelam uma atmosfera social sufocante e melancólica. Quase sempre as histórias se desenrolam em cidades pequenas, com famílias de classe média. Seus protagonistas tendem a ser pessoas angustiadas, submetidas a rotinas monótonas, mas que, em dado momento, confrontam-se com situações que os farão enxergar de forma diferente aspectos de suas existências. Assim, eles experimentam um grande conflito interno, pois quase sempre o que desejam contrasta com a vida que efetivamente levam. 

O círculo dos Mahé (Le Cercle des Mahé, publicado originalmente em 1946), sobre o qual falo aqui, é um desses romances. Desconfio que seja dos mais obscuros de Simenon, já que as traduções para o inglês e o português são relativamente recentes. Na narrativa, François Mahé é um médico de 32 anos, que leva uma vida pacata e entediante. Tem um casamento sem nenhuma paixão com Hélène e dois filhos pequenos. Sua mãe, na casa de quem ainda mora, é extremamente controladora, tendo escolhido sua esposa e também imposto a François seguir a prestigiosa carreira de médico. A pequena cidade onde vive, Saint-Hilaire, é cheia de pessoas aparentadas - o que se nota nas fachadas das lojas, em muitas das quais o sobrenome Mahé figura -, e circulam muitas histórias sobre seus familiares, como seu pai, que François perdeu quando ainda era bem pequeno. O médico se sente preso nesse círculo, sempre obrigado a fazer o que esperam que ele faça - daí o título da obra. 

Contudo, as coisas começam a mudar quando os Mahé viajam de férias para a ilha de Porquerolles, no Mediterrâneo. Um dia, enquanto está pescando, François é chamado para atender a uma enferma, já que o médico local estava fora. Ao chegar na moradia, um galpão do exército ocupado pela família, a mulher, mãe de três crianças, já havia falecido. A filha mais velha, Elizabeth, que traja um vestido vermelho, chama a atenção do médico naquele ambiente extremamente pobre e sujo. O negligente marido da falecida e pai das crianças, Frans Klamm, um ex-legionário visto com desconfiança pelos locais, está também longe da ilha, gastando seu pouco dinheiro em bebedeiras, e precisa ser encontrado para cuidar do sepultamento. 

A partir daí, François desenvolve uma fixação pela figura da garota em seu vestido vermelho. Ele não chega a abordá-la e nem conversar com ela, mas gosta de observá-la, saber de Elizabeth. E, nos anos que se seguem, sempre arranja um pretexto para retornar à localidade e ver a garota. Não é exatamente uma paixão ou desejo sexual pela jovem, mas um sentimento platônico e um fascínio por sua imagem, que representa algo diferente da vida cinzenta que o médico leva em casa. A ilha também o atrai: tudo é desafiador e mais desordenado em Porquerolles, o calor é intenso e nauseante e até os peixes são mais difíceis de serem fisgados, diferentemente da apatia de seu casarão em Saint-Hilaire, com seu jardim gradeado. 

Elizabeth, que continua a usar o seu (talvez único) vestido vermelho, passa a cuidar dos irmãos menores e da casa com grande zelo, o que faz com que os ilhéus admirem a determinação da jovem. No terceiro ano que retornam a Porquerolles, os Mahé levam um sobrinho de Hélène, Alfred, rapaz de 19 anos prestes a ir para a universidade. É então que se dá o ponto mais crítico, do ponto de vista ético, da narrativa: François persuade o rapaz a se envolver com Elizabeth. O médico ouve, com um misto de interesse e raiva, os relatos de Alfred sobre suas investidas. Até que, em uma de suas visitas, Alfred faz sexo com Elizabeth - ao que tudo indica, uma relação forçada. François, de início, chega a sentir certo prazer ao saber da violação da jovem, pois acredita que sua "desonra" seria uma forma de macular a imagem que tem da moça e, assim, dar fim ao sentimento que nutre por ela. Porém, a consciência desse ato - que, afinal, foi por ele próprio orquestrado - só o consome ainda mais. 

"Uma obsessão", diz Balzac, citado por Alberto Manguel, "é um prazer que atingiu a condição de ideia". E é isso o que Elizabeth representa para François. 

Não estava sequer apaixonado. Se estivesse, o problema sem dúvida teria sido muito mais simples. 

Era uma obsessão, eis a palavra. E aquilo tinha começado desde o primeiro dia, porém débil, insidiosamente, como as doenças incuráveis que só constatamos quando já é tarde para tratá-las. 

(...)

Era tudo isso e muitas outras coisas mais, era a negação de sua vida, de tudo que tinha sido sua vida, da casa cinzenta, quadrada e severa como um jogo de construção, com buxos esculpidos por seu antecessor maníaco e um portão de ferro escuro, um homem gordo de trinta e cinco anos - pois agora ele tinha trinta e cinco anos - brincando de fazer roncar sua motocicleta ao longo dos caminhos, brincando de pescar, caçar perdizes ou coelhos, a negação de Saint-Hilaire e de duas mulheres costurando para ele o dia inteiro e avisando quando devia mudar de cueca. 

(SIMENON, 2018).

 

A doença e a morte da mãe - que provavelmente era quem realmente prendia François em Saint-Hilaire - abalam o médico e ele vai se tornando uma figura cada vez mais alheia à família. François passa a beber frequentemente e só se sente melhor quando está na pequena ilha do Mediterrâneo, onde já é uma figura conhecida e estimada pelos locais. Elizabeth, que viria a se mudar com os irmãos para outra localidade e se tornaria uma costureira de boa reputação, continua a ser uma aspiração inalcançável para François. Sua crescente angústia e a sensação de se ver sem saída o levarão a tomar uma atitude que, finalmente, o fará se sentir livre. 

Cabe destacar, ainda, como a pesca é um elemento importante ao longo de todo o romance: de maneira cíclica, a narrativa inicia e se encerra com cenas de pescaria. É significativo também que Hélène não goste de entrar no mar e nem de peixes de água salgada, assim como a mãe de François deixe de comer peixe, o que indica como as ações dessas mulheres se distanciam do que ele almeja. A corvina é o peixe que François, desde o início, tenta fisgar, mas demorará anos até que ele, enfim, consiga pegar uma; já o congro, o peixe comprido e bravo que se esconde em um buraco, talvez represente a própria ilha de Porquerolles, hostil e estranha. 

Se comparado a outros livros de Georges Simenon, O círculo dos Mahé tem um ritmo mais lento e segue uma estrutura narrativa mais linear. O livro, contudo, ganha muita densidade no desenvolvimento de François Mahé, ao mergulhar em sua atormentada mente, revelando seus sentimentos, frustrações e sonhos. 

Para quem tiver interesse, o romance está disponível na BibliOn, a Biblioteca Digital Gratuita do Estado de São Paulo. 


Referência: 

SIMENON, Georges. O círculo dos Mahé. Tradução de André Telles. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. 


sábado, 18 de janeiro de 2025

12 livros para ler em 2025

Os doze livros de ficção que pretendo ler em 2025.


Como vocês sabem, sou perita na arte de fazer planos que não sou capaz de cumprir. Porém, mesmo já imaginando que provavelmente terei dificuldades de levar tal ideia adiante, ao menos uma tentativa de (sob muitas aspas) "planejamento" de leituras a serem feitas ao longo do ano é algo importante para mim. Acredito que isso me oferece um bom ponto de partida. 

Gosto também de tentar sempre estabelecer uma meta anual de livros para ler - geralmente, 25 livros, uma média de pouco mais de dois por mês. Então, dentre esses 25, estariam os doze livros elencados aqui, que seriam os prioritários, e mais outros treze que surgiriam ao longo do ano. 

Acho interessante, ainda, manter um registro escrito das coisas que li, em um caderno ou em um blog (como, aliás, em tese, é o objetivo deste). Creio que consigo apreender melhor as informações do que leio quando escrevo. No ano passado, infelizmente, não fiz nada disso - nem lista de livros, nem meta de leitura, nem anotações - e li bem pouco. E os livros que li ficaram meio difusos na minha mente, pois não fiz registro escrito. 

Montando minha lista de 12 livros para ler em 2025, lembrei também que nunca concluí as listas dos anos anteriores, pois sempre surgiram outros livros no meio do caminho e os meus planos mudaram completamente. Sendo assim, a lista de 2025 terá vários livros não lidos da lista de 2023... Em 2024, como disse antes, não fiz lista. 

Para 2025, o principal critério que adotei foi elencar livros que já possuo nas minhas estantes, além, é claro, de serem obras que pretendo ler há tempos. Também só selecionei obras de ficção. Enfim, eis a famigerada lista. 



Doze livros para ler em 2025:

1. Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac; 

2. O perfume, de Patrick Süskind;                            

3. Ardil-22, de Joseph Heller;      

4. The Buenos Aires Affair, de Manuel Puig;

5. MANIAC, de Benjamín Labatut;

6. Olhos d'água, de Conceição Evaristo;

7. O coração das trevas, de Joseph Conrad;

8. A zona de interesse, de Martin Amis;

9. A distância entre nós, de Thirty Umrigar;

10. O processo, de Franz Kafka;

11. O cerco, de Alejo Carpentier;

12. Daisy Jones & The Six: uma história de amor e música, de Taylor Jenkins Reid.


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Os melhores discos de 2024


Seguindo com as minhas opiniões não solicitadas sobre música, montei uma listinha com os dez discos lançados em 2024 que mais gostei / achei os melhores do ano. Acho que saí um pouco da minha cripta e estou conseguindo ouvir mais música atual. 

Adicionei nos títulos de cada álbum os links das microrresenhas que publiquei no blog do Tumblr (e que também estão nesse fio do Bluesky). 

Top 10: os melhores discos de 2024

1. Fontaines D.C. - Romance 

2. The Last Dinner Party - Prelude to Ecstasy 

3. Milton Nascimento e Esperanza Spalding - Milton + Esperanza

4. Primal Scream - Come Ahead

5. Beyoncé - Cowboy Carter

6. The Cure - Songs of A Lost World

7. Buenos Vampiros - Entre Sombras

8. Rachel Chinouriri - What a Devastating Turn of Events

9. Idles - TANGK

10. Sabrina Carpenter - Short 'n' Sweet

"Maybe romance is a place..." Certo, quem me conhece um pouquinho já sabia que os irlandeses só poderiam estar no topo da minha listinha.


domingo, 12 de janeiro de 2025

Notas de leitura #2 - O capricórnio se aproxima, de Flavio Cafiero

Capa de O capricórnio se aproxima, de Flavio Cafiero.


Como disse há alguns dias, não fui das melhores leitoras no ano que passou. Li bem menos do que gostaria e não fiz, como pretendia, um registro das leituras. Contudo, alguns livros foram tão interessantes que consigo ainda puxar pela memória duas ou três coisas sobre eles. 

É o caso de O capricórnio se aproxima, novela publicada em 2014 pelo escritor carioca Flavio Cafiero. Lançada somente em formato digital, integra o selo JOTA, que propõe desafios relativos a aspectos linguísticos e formais aos autores para a composição de seus textos. Um das restrições propostas ao escritor é das mais difíceis, penso eu, do ponto de vista linguístico: não usar adjetivos. Apesar de o adjetivo não ser o núcleo do sintagma nominal e este tipo de sintagma aparecer em posição de sujeito na oração, no caso das orações com verbo de ligação a coisa se complica um pouco, já que o sintagma adjetival (que tem, como o nome indica, o adjetivo como núcleo) costuma ser o predicativo. Tive a sensação de ver passar um ou outro adjetivo durante a leitura, mas não me detive nesses pormenores. 

Voltando a O capricórnio se aproxima, a narrativa acompanha o cotidiano do taxista João, mostrando suas relações familiares, num vaivém entre a sua infância e a vida adulta. Vivendo no Rio de Janeiro pouco antes da Copa do Mundo de 2014, João está às voltas com o uso de GPS e aplicativos e tentando aprender inglês para atender aos turistas. Além dos desgastes com o trabalho e com o casamento - João desconfia que a esposa o traiu com um vizinho jovem -, outras divergências e situações familiares emergem ao longo do texto. O taxista lembra da irmã, que foi embora de casa na juventude para viver um relacionamento com uma amiga, para desagrado dos pais, que sempre fizeram comentários homofóbicos. Ele precisa também lidar com a doença do pai idoso, que, de acordo com a linguagem cifrada de sua família, virou uma pessoa "de capricórnio". Interessante, ainda, é a dinâmica entre João adulto e o amigo Souza, que dirige o seu táxi no contraturno.

Os capítulos são curtos - até por conta de outra exigência do desafio, de que não deveriam ultrapassar 500 palavras - e se desenrolam de forma bastante ágil - talvez por não existirem aqui tantos floreios, dada a ausência dos adjetivos, e os períodos tenderem a não ser longos -, acompanhando a rotina e as recordações de João, enquanto ele se desloca pelos bairros do Rio, como Copacabana, Tijuca, Vila Isabel... Além das restrições da JOTA, O capricórnio se aproxima brinca com a linguagem ao tratar de expressões que os adultos usam como eufemismos para assuntos que as crianças não podem ouvir. Assim, ser uma pessoa "de capricórnio", a expressão de maior destaque no livro, o leitor não tardará a descobrir que não é algo que se refere propriamente ao signo astrológico. 

Há diversas outras expressões que adquirem sentidos inesperados no texto, conferindo-lhe ironia e humor, como "vendedor de enciclopédia" e "trabalhar no banco", que se referem à homossexualidade, e "fazer aula de violão" e "comer pudim de pão", que indicam sexo. Essas enigmáticas expressões usadas pelos adultos para ocultar de João assuntos que consideravam inadequados para crianças ou para disfarçar seus preconceitos continuaram a reverberar na mente do homem de meia-idade, ainda que agora ele já entendesse perfeitamente o seu significado. 

Para quem se interessar, é possível encontrar a obra de Cafiero na BibliOn, a Biblioteca Digital Gratuita do Estado de São Paulo. 


Referência:

CAFIERO, Flavio. O capricórnio se aproxima. 1. ed. JOTA; e-galaxia, 2014. 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

As melhores músicas de 2024 (para mim)

Fontaines DC, a partir da esquerda: Conor Deegan III, Tom Coll, Grian Chatten, Conor Curley e Carlos O'Connell. Foto de Simon Wheatley.


Não sou jornalista, não trabalho no meio musical e não tenho nenhuma relevância em redes sociais. Mas amo música, gosto de listas e tenho um blog - o suficiente para me aventurar a dar opiniões não solicitadas sobre assuntos relativos à música pop. E, juntando a fome com a vontade de comer, como em 2024 minha veia musical esteve aflorada e tenho me esforçado para conhecer coisas diferentes e ouvir músicas de nossa época - e não apenas as mesmas bandas de sempre -, resolvi montar uma listinha com as canções que mais gostei de ouvir / achei as melhores de 2024. 

Inicialmente, pensei em dez músicas, mas, como ficou um pouco difícil fechar um top 10, ampliei o número para quinze. Prolixa e coração mole até na hora montar uma lista de músicas... 

Bem, além de serem músicas que, para o meu gosto pessoal, são muito boas, os outros critérios adotados para a seleção foram os seguintes: 1) músicas lançadas como singles ou que fazem parte de álbuns lançados em 2024 (algumas músicas saíram como singles em 2023, mas entraram em álbuns de 2024, então, contaram); 2) apenas uma música por artista - quem já leu alguma das bobagens que posto nas redes sabe que o Fontaines D.C. (foto) poderia ter entrado outras vezes na lista, não fosse esse critério. 

Sem mais papo, eis a lista. 

Top 15: as melhores músicas de 2024

1. Fontaines D.C. - "Starburster"

2. Sabrina Carpenter - "Espresso"

3. IDLES feat. LCD Soundsystem - "Dancer"

4. The Last Dinner Party - "Sinner"

5. Chappell Roan - "Good Luck, Babe!"

6. Beyoncé - "BLACKBIIRD"

7. Primal Scream - "Deep Dark Waters"

8. Rachel Chinouriri - "All I Ever Asked"

9. KNEECAP feat. Grian Chatten - "Better Way To Live"

10. Kasabian - "Darkest Lullaby"

11. Milton Nascimento e Esperanza Spalding - "A Day In The Life"

12. English Teacher - “The World’s Biggest Paving Slab” 

13. Jade - "Angel Of My Dreams"

14. Charli xcx - "360"

15. The Cure - "And Nothing Is Forever"

Observações: 
1) O único brasileiro que aparece na lista é Milton Nascimento;
2) Muitos britânicos - mas eu tenho mesmo uma queda pela música do Reino Unido;
3) As mulheres dominaram a parada - nove das quinze músicas são cantadas por mulheres;
4) Os Beatles aparecem duas vezes na lista, em versões de Beyoncé e Milton Nascimento e Esperanza Spalding; 
5) Grian Chatten está em duas músicas - com sua banda em "Starburster" e participando de "Better Way To Live", do KNEECAP. Mas, se considerarmos os videoclipes, ele aprece em três, já que, além dos clipes das duas músicas citadas, ele faz uma ponta no clipe de "Angel Of My Dreams", de Jade;
6) Estou estranhamente muito pop.  

Montei uma playlist no Spotify para quem quiser conferir as músicas. 

 

Em breve, pretendo postar também no blog uma lista com os álbuns de 2024 que mais gostei de ouvir.