sábado, 9 de setembro de 2023

Amélie Poulain ou sobre como nossas percepções mudam


Revi há alguns dias O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, 2001), do diretor francês Jean-Pierre Jeunet, depois de vários anos. Em parte, eu me deixei contaminar pelo alvoroço que as pessoas nas redes sociais fazem em torno do dia 29 de agosto, mencionado logo no início do filme. Mas, principalmente, ler a notícia de que o ator Mathieu Kassovitz, o Nino do longa, havia sofrido recentemente um grave acidente de moto me consternou e, por ter uma admiração por ele desde este filme (bem depois é que eu descobriria seu trabalho também como diretor), resolvi assistir a Amélie novamente.

Acho que eu tinha uma lembrança de que o filme é melhor do que ele realmente é, ou do que me pareceu agora. Ainda gosto dele, mas, hoje, algumas coisas me incomodam um pouco. Melhor, pior, bom, ruim, belo, feio... Sei que são noções subjetivas, mas ainda não consegui me desapegar totalmente delas, especialmente ao falar sobre cinema. Só que isso é assunto para outra ocasião.

Voltando ao filme, O fabuloso destino de Amélie Poulain se situa em uma Paris um tanto idílica, pouco diversa socialmente, meio "fora do tempo", ainda que a história se passe entre fins de agosto e setembro de 1997. Com uma paleta de cores saturadas, sobretudo em tons de vermelho e verde, o longa conta com um narrador bastante intrusivo e verborrágico, uma edição dinâmica - com muitos cortes e inserção de imagens, sobretudo durante os devaneios de Amélie - e uma trilha sonora marcante, assinada por Yann Tiersen, que - por falta de uma definição mais adequada - eu diria que se esforça para parecer "tradicionalmente" francesa, com muito uso de acordeão e piano.

Amélie Poulain (Audrey Tautou) cresce tolhida por seus neuróticos e distantes pais e, já adulta, trabalhando como garçonete em um café, vive solitária em um mundo fantasioso que criou para si. As coisas mudam quando, ao se distrair vendo a notícia sobre a morte de Lady Di pela televisão, ela descobre acidentalmente em seu apartamento uma lata com pertences de um menino, escondida há 40 anos. Amélie decide procurar o dono da lata, para devolvê-la. E, ao ver a felicidade do homem ao reencontrar seu tesouro de infância, Amélie resolve, então, "ajudar" as pessoas e tornar o mundo melhor. Como uma heroína, ela nunca revela a sua identidade (não por acaso, há um momento no filme em que ela se veste de Zorro).

Mas, por mais que supostamente tenha boas intenções, a verdade é que Amélie, em diversos casos, manipula e joga com as pessoas. É o que ocorre com o anão de jardim viajante que manda cartas com fotos dos locais por onde passou para seu pai, a carta que Amélie falsifica e envia para a vizinha como se fosse do marido, o quase enlouquecimento do vendeiro, a relação que estimula entre Georgette e Joseph... Se pararmos para analisar, nem todas as ações de Amélie são exatamente boas e o longa não problematiza muito isso.

Além de sua epifania, digamos assim, de ajudar o próximo, a amizade que desenvolve com o vizinho, o pintor frustrado e adoentado Sr. Dufayel (Serge Merlin), vai dando uma nova perspectiva a Amélie. O Sr. Dufayel, que tem uma doença nos ossos e vive recluso em seu apartamento, tem uma fixação por uma tela de Pierre-Auguste Renoir, O almoço dos barqueiros (1882), e tenta reproduzi-la de toda forma, mas sempre tem dificuldade com uma moça do quadro, cujo olhar é difícil de capturar. Dufayel e Amélie conversam sempre sobre essa moça de olhar insondável, tão enigmática quanto a própria Amélie. Aos poucos, a partir da relação que estabelecem, a jovem auxilia o idoso a descobrir sua própria assinatura artística e a não mais ser um mero copiador de Renoir.

O longa se torna mais instigante na segunda metade, com o jogo de gato e rato entre Amélie e Nino (Mathieu Kassovitz). Sonhador e com dificuldades de socialização como Amélie, Nino Quincampoix trabalha em um sex shop e em um trem fantasma de parque de diversões, ocupações por si só interessantes, não muito usuais e nas quais se lida com fantasias, desejos e temores das pessoas. Uma coisa que o filme de Jeunet não aprofunda muito - talvez por não ser um assunto tão discutido à época de sua realização -, mas dá alguns indícios e penso ser uma chave de leitura possível é o fato de que Amélie e Nino demonstram algum tipo de assexualidade, talvez demissexualidade. Ela já tentou namorar, mas as experiências sexuais não foram nada prazerosas e ele nunca namorou ou não tem interesse nisso, como diz uma das atendentes do sex shop. 

O sexo, no filme, em geral, é tratado de forma um tanto ridícula ou exagerada, como na cena em que Amélie conta os orgasmos simultâneos da cidade ou a escandalosa transa de Georgette e Joseph no banheiro da cafeteria. Apenas o encontro de Amélie e Nino - cujo ato sexual em si não é explorado na tela, apenas o antes e o depois - é tratado de forma delicada e terna, mostrado como relação afetiva.

Nino tem um o hábito de colecionar em álbuns as fotografias que as pessoas descartam em cabines de retratos de locais públicos, tentando reconstituir as que estão rasgadas. Um homem, cujos retratos encontrou várias vezes, intriga Nino. Um dia, indo atrás desse homem, que deixava a cabine fotográfica da estação de trem, o jovem deixa seu álbum de fotos cair no chão. Amélie, que já havia visto Nino em outra oportunidade e estava na estação, também os segue e encontra o álbum do rapaz. Encantada por Nino, mas excessivamente tímida, Amélie pensa em estratagemas para devolver o álbum e para se encontrar com o jovem. Como em um jogo, Amélie vai deixando pistas para Nino. Este, por sua vez, deixa-se envolver e também deixa pistas para ela. Em meio a seu vai e vem e seus desencontros, Amélie é quem ajudará Nino a matar a charada sobre o fantasmagórico homem dos retratos.

O personagem de Mathieu Kassovitz é o mais interessante e o ator é o melhor em cena no filme, para mim. E não estou falando isso porque gosto do ator (bom, talvez esteja), mas é que Kassovitz tem uma interpretação mais natural, diferente da maioria dos outros personagens, quase todos tipos caricatos e histriônicos. Seu Nino é realmente encantador.

E, sim, o desfecho do filme, com o encontro entre Amélie e Nino, ainda derrete o meu coração. Acho linda a condução do encontro amoroso, mostrado com grande sensibilidade.

Uma vez, li um texto de Álvaro de Campos sobre uma conversa que ele teria mantido com o mestre Alberto Caeiro. Eles comentavam sobre versos de um poema do inglês William Wordsworth, cujo ponto de vista Caeiro discordava, explicando:

«O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes».

Nunca me esqueci dessa fala de Caeiro. Ela faz todo o sentido quando pensamos na nossa relação com a literatura, com o cinema, com as artes, de maneira geral. Um filme, embora seja o mesmo filme, sempre nos parecerá um novo filme a cada vez que o vemos. Com o passar do tempo, com as experiências que acumulamos e a ampliação do nosso repertório de referências, não somos mais os mesmos. 

Também o filme não é o mesmo: ele foi produzido em um dado contexto sócio-histórico - como este, na França de 22 anos atrás - e o vemos em um outro contexto, diferente. Um filme informa sobre sua época de produção - e se reconstitui um outro período histórico, também traz indícios sobre essa outra época -, é uma fonte histórica. Contudo, a forma como o vemos, como o interpretamos, não é necessariamente a mesma que as pessoas da época e do local em que foi feito. 

Além disso, considerando os pressupostos da estética da recepção, se o significado de um texto literário se completa com o leitor, penso que o mesmo se dá com os filmes. Cada espectador tem seu conhecimento de mundo, suas expectativas prévias em relação à obra, está inserido em um determinado contexto sócio-histórico. Nesse sentido, um filme nunca será o mesmo, pois cada espectador o receberá e estabelecerá com ele uma relação dialógica diferente. E um mesmo espectador terá percepções diferentes ao assistir novamente a um mesmo filme, uma vez que este espectador também mudou com o tempo.  

Então, acho perfeitamente normal eu gostar um pouco mais ou um pouco menos de um filme ao revê-lo, descobrir elementos novos e pensar sobre questões que nunca tinham me ocorrido antes. Cheguei a comentar um pouco sobre isso umas semanas atrás, ao falar sobre Psicose (Psycho, 1960), de Alfred HitchcockO fabuloso destino de Amélie Poulain pode não ser mais exatamente o mesmo para mim, mas foi um filme importante para a minha constituição como (cof, cof) cinéfila, mostrando-me, quando eu ainda era adolescente, possibilidades de fazer cinema para além de Hollywood. E ainda é um filme que me põe a pensar.


domingo, 27 de agosto de 2023

Doze livros para ler em 2023

Sei que já estamos nos encaminhando para o último terço do ano, mas acho que em um blog como este, que se pretende "literário" (sob muitas aspas), é interessante existir algum planejamento desse tipo. Qualquer pessoa que porventura venha a navegar por estas páginas facilmente perceberá que organização não é o meu forte, ainda que eu sempre a almeje. Por isso, um tanto vergonhosamente, posto finalmente hoje, em fins de agosto (!), a minha listagem de planejamento de leituras para 2023. 

Estou dando uma "trapaceada" na lista, por assim dizer, pois incluí nela três títulos que já li esse ano e sobre os quais pretendo comentar aqui no blog. Conseguirei ler todos os outros em apenas quatro meses? Provavelmente não. Mas ao menos essa lista de intenções fica registrada aqui e os que eu não conseguir ler entram na minha lista dos "livros não lidos de anos anteriores mas que ainda pretendo ler". É que sempre fujo de alguma forma do planejado para o ano, pois surgem outros livros no meio do caminho e alguns livros da lista anual acabam não sendo lidos, juntando-se aos que também não foram lidos dos anos anteriores - o que, como dá para perceber, é algo interminável.

Adicionei à lista de 2023 apenas livros de ficção. Dessa vez, nenhum dos livros é de poesia, pois, a bem da verdade, eu leio bem menos poesia do que prosa. Livros de outros gêneros não literários, como obras sobre história, música, cinema, biografias etc., não entraram aqui. Penso que essa lista também não está tão diversa, como seria desejável: há mais autores homens que mulheres e a maior parte dos selecionados são europeus. Por outro lado, tentei incluir obras mais recentes - o que costuma ser uma dificuldade para mim -, como as de Echenoz e Reid.

Enfim, eis a lista.



Doze livros para ler em 2023:

1. O quarto azul, de Georges Simenon; 

2. Você gosta de Brahms..., de Françoise Sagan;

3. 14, de Jean Echenoz;

4. O perfume, de Patrick Süskind;

5. Ardil-22, de Joseph Heller;

6. Dublinenses, de James Joyce;

7. Coração das trevas, de Joseph Conrad;

8. A zona de interesse, de Martin Amis;

9. A distância entre nós, de Thirty Umrigar;

10. O processo, de Franz Kafka;

11. O cerco, de Alejo Carpentier;

12. Daisy Jones & The Six: uma história de amor e música, de Taylor Jenkins Reid.


Sendo otimista, espero consegui ler boa parte dos livros da lista nos meses seguintes, sem procrastinar e não desviar tanto da rota. Veremos. 

Por fim, desejo boas leituras também para os poucos leitores deste blog! 


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Psicose (1960), de Alfred Hitchcock: a propósito de uma cena

Revi um dia desses Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock. Não sei por que motivo, ando fascinada pelo ator Anthony Perkins, com vontade de ver todos os filmes dele. Aliás, eu sei o motivo: assisti a Goodbye Again (Mais uma vez, adeus, de 1961), longa protagonizado por ele e por Ingrid Bergman, baseado no romance Você gosta de Brahms... (Aimez vous Brahms?), da escritora francesa Françoise Sagan - pretendo comentar sobre esse livro por aqui. Perkins está um charme nesse filme, fiquei encantada por ele!

Mas, voltando a Psicose, revê-lo após alguns anos foi uma experiência muito prazerosa. Há filmes com os quais ficamos embasbacados na primeira vez em que os vemos, mas que nas vezes subsequentes vão perdendo a graça ou não nos parecem mais tão bons. Contudo, com Psicose isso definitivamente não acontece! O filme continua perfeito para mim! Sei que algumas pessoas não gostam do final, mas acho que para a época ele foi adequado, já que a trama traz complexidades que um fim muito aberto poderia tornar de difícil compreensão por parte do público. 

A cena do vídeo abaixo é a minha favorita do filme. Comentei no Twitter sobre ela há alguns dias, mas, dada a limitação de caracteres daquela rede social, não consegui expor tudo o que gostaria. Aqui no blog tenho mais liberdade para isso.


Penso que a cena em questão, aquela em que Norman (Anthony Perkins) leva Marion (Janeth Leigh) para o seu cômodo reservado no fundo do escritório do hotel, onde estão os animais empalhados, é crucial para o longa. Está tudo ali, mas não tão explícito, é preciso atentar aos detalhes: a ideia de que todos estamos presos em armadilhas das quais não conseguimos escapar (e muitas vezes nós mesmos nos colocamos nelas), Marion comparada por Norman a um pássaro (tipo de animal que ele empalha), a sugestão de um complexo de Édipo de Norman mal resolvido, as ideias de loucura e de morte... 

Acho a postura corporal e a expressão facial de Anthony Perkins e os enquadramentos dessa cena demais! Reconheço que não tenho o domínio teórico para pontuar tantos elementos técnicos, mas acredito ter encontrado alguns aspectos interessantes nesse trecho do filme. Os estudiosos de cinema que me perdoem por algum equívoco, mas falo a partir do que já li sobre linguagem cinematográfica. Não tenho formação na área, mas sou uma curiosa e entusiasta do cinema, gosto muito de ler sobre essa arte. 

Há ao menos três momentos nesse diálogo de cerca de 8 minutos, visualmente marcados pela mudança de planos e ângulos, e também pelo menos três frases marcantes ditas por Norman Bates em cada um deles que nos dão indícios do que sucederá depois.

Inicialmente, ao conversar com Marion enquanto esta come, Norman é mostrado mais distante, em plano americano, em posição quase frontal. Parece tímido, dócil, gagueja, sorri bastante, mexe despretensiosamente no pássaro empalhado na mesa ao seu lado. Norman compara Marion a um pássaro ("You eat like a bird") e depois fala que prefere empalhá-los em vez de outros animais por sua passividade. "Bird", vale lembrar, pela época do filme, era também usada como uma gíria para uma mulher jovem ou bonita, mas principalmente no Reino Unido, como me advertiu uma colega no Twitter. Quando Marion pergunta se Norman sai com amigos, ele hesita e diz a conhecida frase: "A boy's best friend is his mother" ("O melhor amigo de um garoto é sua mãe"). Mas, apesar da docilidade e do jeito infantilizado, Norman é perspicaz e nota que Marion, que diz desejar ir para uma ilha particular, foge de algo.


O que considero como um segundo momento da cena ocorre quando Marion o questiona sobre a forma como ele é tratado pela mãe. Ela acabara de ouvir uma discussão acalorada entre mãe e filho. A expressão facial de Norman se altera, ele se torna mais sério. O plano mostra o personagem um pouco mais de perto (um meio primeiro plano, eu diria), quase de perfil e inicialmente no centro da tela, quando ele está mais agitado. Logo depois, Norman demonstra autocontrole e se senta mais relaxado na poltrona, posicionando-se no canto direito da tela (a câmera está parada, é o personagem que se move). Vemos o rosto de Norman de baixo para cima (contra-plongée) e na diagonal, ainda quase de perfil, enfatizando a águia empalhada no canto superior esquerdo como uma espécie de ponto de fuga do plano. 


Devido a essa sensação de perspectiva, ressaltada pelas linhas imaginárias que convergem em direção à águia, olhamos para Norman, mas também para a águia - enorme, com as asas abertas, como se estivesse voando. Agora Norman fala de forma mais confiante, conta de sua relação com a mãe, da morte do pai e do padrasto, como a mãe e esse segundo marido ou namorado abriram o hotel, da doença da mãe... Ele diz que a mãe perdeu tudo após a morte desse outro homem, ao que Marion retruca: "Except you" ("Exceto você"). Norman então tem a fala: "Well, a son is a poor substitute for a lover" ("Bem, um filho é um mau substituto para um amante"). 

Há uma ideia de maior empoderamento do personagem nessa segunda parte da cena, reforçada pelo contra-plongée. Norman, da forma como interpreto, seria a águia armando o ataque contra sua presa (Marion, o pássaro). Norman afirma, ainda, não odiar a mãe, mas sim o que ela se tornou devido à doença.

Em seguida, Marion sugere que Norman coloque a mãe em uma instituição. Aí temos a grande virada da cena, o terceiro momento: Norman se aproxima de Marion, close em seu rosto, que passa a ocupar o centro da tela e quase em posição frontal. Sua fala agora é firme, seu olhar brilhante e ameaçador. Ele repele totalmente a ideia de Marion. Como Norman poderia abandonar  a mãe em uma instituição para loucos? (Até porque, como será visto mais tarde, ele próprio assumira essa persona). O rapaz afirma que a mãe é tão inofensiva quanto os pássaros empalhados na saleta (o que será confirmado depois) e que precisa dele (de fato, a mãe agora existe nele). Ela apenas se descontrola algumas vezes, mas, afinal - e aqui vemos a sua loucura aflorar: "We all go a ittle mad sometimes" ("Todos nós ficamos um pouco loucos às vezes"). 


Ao se despedir de Norman após o lanche, Marion deixará escapar que seu sobrenome é Crane e que voltará para Phoenix. Como Norman confirmará em seu livro de hóspedes, ela havia indicado um nome e um local de origem diferentes, o que o faz ter certeza de que a moça esconde algo. "Crane" em inglês também é o nome de uma ave, um grou. Além de Phoenix também ser o nome de um pássaro mitológico, a fênix, que ao morrer se destrói em chamas para em seguida renascer das próprias cinzas.

Pouco antes do fim da conversa, o rapaz enfatiza a Marion que deve ser chamado de Norman, não de Mr. Bates, como se poderia esperar. Ao que parece, Norman não se vê propriamente como um homem adulto, mas como um garoto. Um garoto que depende da mãe e para o qual qualquer contato com outra mulher é algo interdito. Na primeira parte do diálogo, além da proverbial linha "A boy's best friend is his mother", em dado momento Norman diz que faz pequenos serviços para a mãe, aqueles que ela julga ser ele capaz de executar. O quarto de Norman no casarão, quando Lila Crane (Vera Miles) o encontra mais à frente no filme, é ainda cheio de brinquedos. Antes de levar Marion para o escritório com seus animais empalhados, a moça o convida a entrar em seu quarto com a bandeja de chá, mas ele recua - como poderia ficar a sós com uma mulher em um quarto após o que a mãe havia lhe dito? O detetive Arbogast (Martin Balsam) mais tarde perguntará se Norman dormiu com Marion, o que o deixará perturbado também. Para Norman, qualquer sugestão de contato íntimo com uma mulher parece inaceitável. 

Já li interpretações de que Norman seria homossexual - até por conta do ato de se travestir. Mas discordo desse posicionamento. Acho que ele sente atração física por mulheres, mas reprime esse desejo, porque carrega em si uma outra personalidade, a da mãe. De qualquer forma, Psicose e outros filmes de Hitchcock são um prato cheio para leituras psicanalíticas, como bem observou Luiz Carlos Merten no livro Cinema: entre a realidade e o artifício.


Por todo esse apuro técnico, pelas atuações - principalmente as modulações e sutilezas de Perkins - e as várias chaves de leitura abertas, eu acho essa cena do diálogo entre Norman e Marion brilhante. 

Hitchcock, assim como Stanley Kubrick e Orson Welles, entre outros, fazia bastante uso da perspectiva no desenho dos planos. Por isso, do ponto de vista estético, seus filmes costumam ser tão bonitos. Mas não é apenas o aspecto visual que esses cineastas procuravam: forma e conteúdo andam juntos. Cada escolha na composição dos planos tem um propósito narrativo. Quando a câmera foca em determinado elemento do plano, essa escolha não é apenas plástica, está alinhada à narrativa, tem uma significação e pretende causar um efeito no espectador. E aspectos como esses são o que fazem do cinema algo tão interessante.

domingo, 30 de julho de 2023

Filmes vistos em 2022: os 15 favoritos

Jane Asher e John Moulder Brown em cena de Deep End (1970), de Jerzy Skolimowski

Ninguém me perguntou, mas aqui estão os filmes que mais gostei de ver em 2022 (dos que me lembro que assisti). Não preparei uma lista de "melhores do ano", até porque não consigo acompanhar muito os lançamentos e nem tenho base para comentar sobre isso. Sei que já passamos da metade de 2023 (!), mas só agora consegui terminar essa postagem (!!!). 

Trata-se uma lista sincera e despretensiosa, de quem curte cinema por prazer. Isto é, não tenho formação e nem trabalho na área. Não sou jornalista e nem crítica. Então, embora eu aprecie a sétima arte, não tenho domínio sobre as questões mais técnicas. Apenas assisto como espectadora comum (e de vez em quando dou uns pitacos no Twitter sobre o que vi). No máximo, posso dizer que meu olhar é o de uma historiadora e profissional de Letras. Sempre digo que sou uma "curiosa" em relação ao cinema: adoro ler e pesquisar informações sobre, mas sem deixar de reconhecer as minhas limitações. 

E, sim, meu processador é lento e eu demoro a assistir/ler/ouvir coisas lançadas no ano corrente. Provavelmente, o que saiu em 2022 verei mais em 2023 e nos anos seguintes. E assim vou indo. Na verdade, eu adoro descobrir "novidades" no meio de coisas antigas, isto é, adoro voltar décadas atrás e descobrir um filme obscuro, uma banda pouco falada mas que tem um som incrível ou um livro que ninguém mais se lembra. Talvez seja meu vício de historiadora.

Os critérios desta lista: filmes que vi pela primeira vez em 2022, não necessariamente lançados nesse ano; apenas um filme por diretor (do contrário, diretores como David Lean e Xavier Dolan poderiam ter entrado outras vezes). A lista está aproximadamente por ordem de preferência, mas as posições dos quatro primeiros, por exemplo, poderiam estar alternadas, pois gostei muito dos quatro. Sobre os cinco primeiros, faço uma apresentação um pouco mais detalhada. Já para os títulos seguintes apenas cito os nomes e dados principais, como ano, país de origem e diretor. 


Meus filmes favoritos em 2022:


1.  Ato final (Deep End, 1970, Reino Unido/Alemanha)

Direção: Jerzy Skolimowski

Esse filme do polonês Jerzy Skolimowski, lançado há mais de 40 anos, foi o que mais me capturou no ano passado. O longa acompanha a trajetória do jovem de 15 anos Mike (John Moulder Brown), que consegue seu primeiro emprego em uma casa de banhos. Logo, Mike passa a nutrir uma paixão pela colega de trabalho Susan (Jane Asher), uma mulher alguns anos mais velha que ele e que mantém relacionamentos com outros homens.  

O desejo de Mike por Susan, inicialmente algo pueril, gradativamente se torna obsessivo e o filme tem uma virada surpreendente - mas que, quando olhamos em retrospecto, de certa forma, já era prenunciada por elementos visuais apresentados na tela. Assim, nada nesse longa é aleatório - do uso das cores nos cenários e objetos, especialmente a cor vermelha, à trilha sonora, com destaque para a canção de "But I Might Die Tonight", de Cat Stevens/Yulsuf - tudo contribui para a construção da narrativa. 

Ambientado na Swing London, o trabalho de Jerzy Skolimowski é um retrato da juventude, da moda, da música e, especialmente, da busca por liberdade sexual da época. Além disso, situado na transição dos anos 1960 para o 1970, o filme também aponta, parafraseando John Lennon, como o sonho hippie da paz e do amor estava acabando. Enfim, um filme que merece ser visto muitas vezes!


2. Aftersun (2022, Reino Unido)

Direção: Charlotte Wells

Aftersun foi o último filme que assisti no ano passado (de maneira, digamos, "não exatamente legal", se é que me entendem) e me causou uma forte impressão. Depois, já início de 2023, revi o longa duas vezes, no streaming e no cinema. O filme da jovem cineasta Charlotte Wells é como um quebra-cabeça incompleto, tentamos encaixar novas peças a cada vez que o assistimos, mas parecem sempre faltar outras... E acho que esse é seu maior mérito. 

Há certo mistério sobre Calum (Paul Mescal), o pai de Sophie (vivida por Frankie Corio na infância e por Celia Rowlson-Hall já adulta). Dúvidas que, ao final da projeção, continuam em aberto. A filha, a partir de suas memórias e dos vídeos que gravou em uma viagem de férias para a Turquia na infância (talvez a última que tenha feito com ele?), tenta compreender o pai. 

As paisagens de uma ensolarada Turquia são belíssimas, o mar e o céu de um azul magnífico! O longa é também recheado de músicas, especialmente do Britpop noventista. Há uma muito comentada (não sem razão) bela cena com "Under Pressure", de Queen e David Bowie. Mas a sequência que mais gostei foi aquela em que ouvimos "Tender", do Blur. Como o meu relacionamento com o meu pai é também marcado pela música - muitas bandas de que gosto aprendi a ouvir com ele - e fui criança durante os anos 1990, o filme me pegou de jeito. 


3. Matthias & Maxime (2019, Canadá)

Direção: Xavier Dolan

Um filme sobre a amizade, sobre a aceitação da própria sexualidade, sobre os dilemas que enfrentamos ao ingressar na vida adulta (trabalho, universidade, casamento, família etc.). Dirigido, roteirizado e protagonizado pelo canadense Xavier Dolan (que ainda não tem 35 anos, mas já possui uma filmografia invejável), é um dos seus filmes mais contidos, em termos de elementos visuais, como uso de cores fortes e câmera lentaNão que tais recursos não ocorram aqui em determinados momentos, mas eu diria que em Matthias & Maxime Dolan é menos "barroco" que em outros filmes seus, como Les Amours Imaginaires (2010) e Laurence Anyways (2012). Talvez seja o filme de Dolan que mais gostei até agora. 

A trama acompanha um grupo de jovens, amigos desde a infância, centrando-se na relação entre dois deles, Matthias (Gabriel D'Almeida Freitas) e Maxime (Dolan), que são mais próximos. Matt está decolando na empresa onde trabalha e prestes a se casar e Max, que vive uma relação complicada com a mãe e parece mais perdido, decide se mudar para a Austrália. Um dia, Matthias e Maxime viajam para a casa de campo da família de um dos outros amigos, Rivette (Pier-Luc Funk). Lá, a irmã deste, Ericka (Camille Felton), estudante de cinema, está decidida a fazer um curta. E o que há nesse filme? Entre um emaranhado de cenas, há o registro foi por ela de um beijo entre Matt e Max. Depois desse beijo, a relação entre os dois amigos, que antes parecia harmônica, fica abalada e eles começam a se questionar sobre seus sentimentos, seus desejos e sobre suas vidas. 


4.  Passagem para a Índia (A Passage to India, 1984, Reino Unido/Estados Unidos)

Direção: David Lean

Último filme do mestre David Lean, que ficou um bom tempo sem filmar após o fracasso de A filha de Ryan (Ryan's Daughter, 1970), Passagem para a Índia é baseado no romance de mesmo nome de E. M. Forster. Este filme de Lean não chega a ser um épico tão grandioso quanto outras obras suas, como Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) e Dr. Jivago (Doctor Zhivago, 1965), mas, como de praxe, traz o apuro técnico do diretor, com planos mostrando belas paisagens, todo o cuidado com a reconstituição de época e a trilha sonora imponente de Maurice Jarre. O longa conta também com ótimas atuações, especialmente de Judy Davis, Victor Banerjee e da veterana Peggy Ashcroft, tendo esta última recebido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel. 

Ambientado na década de 1920, Passagem para a Índia acompanha a ida para a Índia da jovem Adela Quested (Judy Davis) e da Sr.ª Moore (Peggy Ashcroft). Lá vive o filho da Sr.ª Moore, Ronny Heaslop (Nigel Havers), que ocupa um cargo de magistrado a serviço do império britânico e é noivo de Adela. A Sr.ª Moore e Adela tornam-se amigas do Prof. Fielding (Richard Fox), diretor escolar que vive há anos na localidade, e do Dr. Aziz Ahmed (Victor Banerjee), um médico indiano. Um dia, Aziz leva as duas mulheres para um passeio em um sítio local, as Cavernas de Marabar. Em dado momento do passeio, Adela se perde de Aziz nas cavernas e depois é achada ferida por ingleses na estrada. Aziz, então, é acusado de tentativa de estupro. O julgamento causará um conflito entre indianos e ingleses na região. O longa aborda, assim, entre outras questões, o imperialismo, desnudando os conflitos raciais e de classe na Índia ocupada por britânicos. 


5. O homem ideal (Ich bin dein Mensch, 2021, Alemanha)

Direção: Maria Schrader 

É difícil enquadrar o filme alemão em um gênero, percebemos nele uma mistura de ficção científica, romance e drama. O longa acompanha os dilemas vividos por Alma (Maren Eggert), que, em troca de financiamento para sua pesquisa na universidade, aceita participar de um experimento em que deve conviver com o robô Tom (Dan Stevens), desenvolvido para ser o seu parceiro amoroso ideal. Levantam-se, então, discussões sobre o que nos torna humanos, a nossa relação com as tecnologias, o envelhecimento, o afeto e o prazer... Ainda tem Dan Stevens falando alemão!


6. Licorice Pizza (2021, Estados Unidos)

Direção: Paul Thomas Anderson



7. Munique (Munich, 2005, Estados Unidos)

Direção: Steven Spielberg



8. Mustang: alma indomável / Rédeas da redenção (The Mustang, 2019, Estados Unidos/França /Bélgica)

Direção: Laure de Clermont-Tonnerre



9. Nada de novo no front (Im Westen nichts Neues, 2022, Alemanha/Estados Unidos)

Direção: Edward Berger



10. Um mergulho no passadoA Bigger Splash (2015, Itália/França)

Direção: Luca Guadagnino



11. Esteros (2016, Argentina/Brasil)

Direção: Papu Curotto



12. A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly (True History of the Kelly Gang, 2019, Austrália/Reino Unido) 

Direção: Justin Kurzel



13. Nos corredores (In den Gängen, 2018, Alemanha)

Direção: Thomas Stuber



14. Que mal eu fiz a Deus? (Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?, 2015, França)

Direção: Philippe de Chauveron



15. Depois a louca sou eu (Brasil, 2021)

Direção: Júlia Rezende



A expressiva presença da Alemanha na lista me surpreendeu! E uma observação final é a de que, realmente, preciso ver mais obras de países da América Latina, Ásia e da África. 

Veremos como será a lista de 2023. Acho que agora consigo manter um melhor acompanhamento do que assisti com o Letterboxd.




sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Retorno e metas para 2023


Sem querer me justificar sobre o abandono no blog - mas já me justificando -, preciso dizer que 2022 foi um ano complicado para mim. A retomada das atividades presenciais no meu trabalho cobrou seu preço e não consegui me organizar bem em relação às leituras e estudos. Resultado: li bem menos que em 2021. 

Percebi, então, que preciso voltar a ter um mínimo de controle e acompanhamento das leituras, do contrário, a rotina vai me tragar novamente. Leitura é hábito, é algo que deve ser cultivado diariamente. E, para isso, é preciso achar um tempo para ler nas 24 horas de que dispomos. Aparentemente, deveria ser algo fácil. Entretanto, considerando as nossas atribuições e tarefas diárias, nem sempre é!

Algo positivo em 2022 foi a minha reaproximação com o cinema. Voltei a ter prazer em ver filmes, procurar obras mais antigas e outras fora dos padrões de Hollywood. Enfim, voltei a me encantar pela telona. E fiquei com vontade de ler mais e pensar sobre o audiovisual, assim como já gosto de fazer com a música.

Também me reaproximei do futebol. Nunca me afastei, é verdade. Sempre gostei de assistir e acompanhar os jogos do Brasileirão, especialmente os do meu Fluminense. Mas a Copa e o futebol de seleções, que sempre exerceram um fascínio sobre mim, dessa vez me pegaram de jeito. Foi lindo ver o Messi em grande forma e a vitória da Argentina! E, num arroubo juvenil, até o álbum de figurinhas da Copa comprei (sob o pretexto de colecionar junto com o meu sobrinho, é claro). 

Durante o último ano, eu me dediquei, ainda, ao estudo de línguas, especialmente o Latim e o Grego Clássicos, os quais eu já estudava antes, além de iniciar o estudo de Alemão. Então, parte considerável do meu tempo também foi consumido com aulas e atividades relacionadas aos cursos dessas línguas. 

Como início de ano costuma ser aquele momento em que fazemos um balanço do ano que passou e pensamos sobre o que fazer no que se inicia, pensei em algumas metas. Não gosto do caráter produtivista dessa coisa de metas, porém, como me conheço bem, sei que preciso tentar organizar o meu caos pessoal de alguma forma. Pois bem, eis as minhas metas para este ano.

Metas para 2023:

1. Ler, no mínimo, 25 livros;
2. Atualizar o blog ao menos quinzenalmente;
3. Manter um caderno de organização de leituras;
4. (Tentar) cumprir as metas não cumpridas de anos anteriores;
5. Dar prosseguimento aos projetos de leitura do blog;
6. Postar sobre música, cinema e séries também;
7. Retomar leituras sobre História e Antropologia;
8. Ler sobre Cinema, Comunicação e Futebol;
9. Atualizar com regularidade meus perfis no Skoob e Filmow;
10. Dar prioridade de leitura a livros que já possuo (isto é, evitar gastos e fazer bom uso do meu acervo). 


Por fim, desejo um bom 2023 para todos! Que os ventos de mudança do ano que se inicia tragam coisas boas para nós. Desejo também que o obscurantismo e o preconceito não mais tenham espaço e que a cultura, a arte e a ciência voltem a ser valorizadas em nosso país.