Voltando ao filme, O fabuloso destino de Amélie Poulain se situa em uma Paris um tanto idílica, pouco diversa socialmente, meio "fora do tempo", ainda que a história se passe entre fins de agosto e setembro de 1997. Com uma paleta de cores saturadas, sobretudo em tons de vermelho e verde, o longa conta com um narrador bastante intrusivo e verborrágico, uma edição dinâmica - com muitos cortes e inserção de imagens, sobretudo durante os devaneios de Amélie - e uma trilha sonora marcante, assinada por Yann Tiersen, que - por falta de uma definição mais adequada - eu diria que se esforça para parecer "tradicionalmente" francesa, com muito uso de acordeão e piano.
Amélie Poulain (Audrey Tautou) cresce tolhida por seus neuróticos e distantes pais e, já adulta, trabalhando como garçonete em um café, vive solitária em um mundo fantasioso que criou para si. As coisas mudam quando, ao se distrair vendo a notícia sobre a morte de Lady Di pela televisão, ela descobre acidentalmente em seu apartamento uma lata com pertences de um menino, escondida há 40 anos. Amélie decide procurar o dono da lata, para devolvê-la. E, ao ver a felicidade do homem ao reencontrar seu tesouro de infância, Amélie resolve, então, "ajudar" as pessoas e tornar o mundo melhor. Como uma heroína, ela nunca revela a sua identidade (não por acaso, há um momento no filme em que ela se veste de Zorro).
Mas, por mais que supostamente tenha boas intenções, a verdade é que Amélie, em diversos casos, manipula e joga com as pessoas. É o que ocorre com o anão de jardim viajante que manda cartas com fotos dos locais por onde passou para seu pai, a carta que Amélie falsifica e envia para a vizinha como se fosse do marido, o quase enlouquecimento do vendeiro, a relação que estimula entre Georgette e Joseph... Se pararmos para analisar, nem todas as ações de Amélie são exatamente boas e o longa não problematiza muito isso.
Além de sua epifania, digamos assim, de ajudar o próximo, a amizade que desenvolve com o vizinho, o pintor frustrado e adoentado Sr. Dufayel (Serge Merlin), vai dando uma nova perspectiva a Amélie. O Sr. Dufayel, que tem uma doença nos ossos e vive recluso em seu apartamento, tem uma fixação por uma tela de Pierre-Auguste Renoir, O almoço dos barqueiros (1882), e tenta reproduzi-la de toda forma, mas sempre tem dificuldade com uma moça do quadro, cujo olhar é difícil de capturar. Dufayel e Amélie conversam sempre sobre essa moça de olhar insondável, tão enigmática quanto a própria Amélie. Aos poucos, a partir da relação que estabelecem, a jovem auxilia o idoso a descobrir sua própria assinatura artística e a não mais ser um mero copiador de Renoir.
O longa se torna mais instigante na segunda metade, com o jogo de gato e rato entre Amélie e Nino (Mathieu Kassovitz). Sonhador e com dificuldades de socialização como Amélie, Nino Quincampoix trabalha em um sex shop e em um trem fantasma de parque de diversões, ocupações por si só interessantes, não muito usuais e nas quais se lida com fantasias, desejos e temores das pessoas. Uma coisa que o filme de Jeunet não aprofunda muito - talvez por não ser um assunto tão discutido à época de sua realização -, mas dá alguns indícios e penso ser uma chave de leitura possível é o fato de que Amélie e Nino demonstram algum tipo de assexualidade, talvez demissexualidade. Ela já tentou namorar, mas as experiências sexuais não foram nada prazerosas e ele nunca namorou ou não tem interesse nisso, como diz uma das atendentes do sex shop.
O sexo, no filme, em geral, é tratado de forma um tanto ridícula ou exagerada, como na cena em que Amélie conta os orgasmos simultâneos da cidade ou a escandalosa transa de Georgette e Joseph no banheiro da cafeteria. Apenas o encontro de Amélie e Nino - cujo ato sexual em si não é explorado na tela, apenas o antes e o depois - é tratado de forma delicada e terna, mostrado como relação afetiva.
Nino tem um o hábito de colecionar em álbuns as fotografias que as pessoas descartam em cabines de retratos de locais públicos, tentando reconstituir as que estão rasgadas. Um homem, cujos retratos encontrou várias vezes, intriga Nino. Um dia, indo atrás desse homem, que deixava a cabine fotográfica da estação de trem, o jovem deixa seu álbum de fotos cair no chão. Amélie, que já havia visto Nino em outra oportunidade e estava na estação, também os segue e encontra o álbum do rapaz. Encantada por Nino, mas excessivamente tímida, Amélie pensa em estratagemas para devolver o álbum e para se encontrar com o jovem. Como em um jogo, Amélie vai deixando pistas para Nino. Este, por sua vez, deixa-se envolver e também deixa pistas para ela. Em meio a seu vai e vem e seus desencontros, Amélie é quem ajudará Nino a matar a charada sobre o fantasmagórico homem dos retratos.
O personagem de Mathieu Kassovitz é o mais interessante e o ator é o melhor em cena no filme, para mim. E não estou falando isso porque gosto do ator (bom, talvez esteja), mas é que Kassovitz tem uma interpretação mais natural, diferente da maioria dos outros personagens, quase todos tipos caricatos e histriônicos. Seu Nino é realmente encantador.
E, sim, o desfecho do filme, com o encontro entre Amélie e Nino, ainda derrete o meu coração. Acho linda a condução do encontro amoroso, mostrado com grande sensibilidade.
Uma vez, li um texto de Álvaro de Campos sobre uma conversa que ele teria mantido com o mestre Alberto Caeiro. Eles comentavam sobre versos de um poema do inglês William Wordsworth, cujo ponto de vista Caeiro discordava, explicando:
«O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes».
Nunca me esqueci dessa fala de Caeiro. Ela faz todo o sentido quando pensamos na nossa relação com a literatura, com o cinema, com as artes, de maneira geral. Um filme, embora seja o mesmo filme, sempre nos parecerá um novo filme a cada vez que o vemos. Com o passar do tempo, com as experiências que acumulamos e a ampliação do nosso repertório de referências, não somos mais os mesmos.
Também o filme não é o mesmo: ele foi produzido em um dado contexto sócio-histórico - como este, na França de 22 anos atrás - e o vemos em um outro contexto, diferente. Um filme informa sobre sua época de produção - e se reconstitui um outro período histórico, também traz indícios sobre essa outra época -, é uma fonte histórica. Contudo, a forma como o vemos, como o interpretamos, não é necessariamente a mesma que as pessoas da época e do local em que foi feito.
Além disso, considerando os pressupostos da estética da recepção, se o significado de um texto literário se completa com o leitor, penso que o mesmo se dá com os filmes. Cada espectador tem seu conhecimento de mundo, suas expectativas prévias em relação à obra, está inserido em um determinado contexto sócio-histórico. Nesse sentido, um filme nunca será o mesmo, pois cada espectador o receberá e estabelecerá com ele uma relação dialógica diferente. E um mesmo espectador terá percepções diferentes ao assistir novamente a um mesmo filme, uma vez que este espectador também mudou com o tempo.
Então, acho perfeitamente normal eu gostar um pouco mais ou um pouco menos de um filme ao revê-lo, descobrir elementos novos e pensar sobre questões que nunca tinham me ocorrido antes. Cheguei a comentar um pouco sobre isso umas semanas atrás, ao falar sobre Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock. O fabuloso destino de Amélie Poulain pode não ser mais exatamente o mesmo para mim, mas foi um filme importante para a minha constituição como (cof, cof) cinéfila, mostrando-me, quando eu ainda era adolescente, possibilidades de fazer cinema para além de Hollywood. E ainda é um filme que me põe a pensar.
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