sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Psicose (1960), de Alfred Hitchcock: a propósito de uma cena

Revi um dia desses Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock. Não sei por que motivo, ando fascinada pelo ator Anthony Perkins, com vontade de ver todos os filmes dele. Aliás, eu sei o motivo: assisti a Goodbye Again (Mais uma vez, adeus, de 1961), longa protagonizado por ele e por Ingrid Bergman, baseado no romance Você gosta de Brahms... (Aimez vous Brahms?), da escritora francesa Françoise Sagan - pretendo comentar sobre esse livro por aqui. Perkins está um charme nesse filme, fiquei encantada por ele!

Mas, voltando a Psicose, revê-lo após alguns anos foi uma experiência muito prazerosa. Há filmes com os quais ficamos embasbacados na primeira vez em que os vemos, mas que nas vezes subsequentes vão perdendo a graça ou não nos parecem mais tão bons. Contudo, com Psicose isso definitivamente não acontece! O filme continua perfeito para mim! Sei que algumas pessoas não gostam do final, mas acho que para a época ele foi adequado, já que a trama traz complexidades que um fim muito aberto poderia tornar de difícil compreensão por parte do público. 

A cena do vídeo abaixo é a minha favorita do filme. Comentei no Twitter sobre ela há alguns dias, mas, dada a limitação de caracteres daquela rede social, não consegui expor tudo o que gostaria. Aqui no blog tenho mais liberdade para isso.


Penso que a cena em questão, aquela em que Norman (Anthony Perkins) leva Marion (Janeth Leigh) para o seu cômodo reservado no fundo do escritório do hotel, onde estão os animais empalhados, é crucial para o longa. Está tudo ali, mas não tão explícito, é preciso atentar aos detalhes: a ideia de que todos estamos presos em armadilhas das quais não conseguimos escapar (e muitas vezes nós mesmos nos colocamos nelas), Marion comparada por Norman a um pássaro (tipo de animal que ele empalha), a sugestão de um complexo de Édipo de Norman mal resolvido, as ideias de loucura e de morte... 

Acho a postura corporal e a expressão facial de Anthony Perkins e os enquadramentos dessa cena demais! Reconheço que não tenho o domínio teórico para pontuar tantos elementos técnicos, mas acredito ter encontrado alguns aspectos interessantes nesse trecho do filme. Os estudiosos de cinema que me perdoem por algum equívoco, mas falo a partir do que já li sobre linguagem cinematográfica. Não tenho formação na área, mas sou uma curiosa e entusiasta do cinema, gosto muito de ler sobre essa arte. 

Há ao menos três momentos nesse diálogo de cerca de 8 minutos, visualmente marcados pela mudança de planos e ângulos, e também pelo menos três frases marcantes ditas por Norman Bates em cada um deles que nos dão indícios do que sucederá depois.

Inicialmente, ao conversar com Marion enquanto esta come, Norman é mostrado mais distante, em plano americano, em posição quase frontal. Parece tímido, dócil, gagueja, sorri bastante, mexe despretensiosamente no pássaro empalhado na mesa ao seu lado. Norman compara Marion a um pássaro ("You eat like a bird") e depois fala que prefere empalhá-los em vez de outros animais por sua passividade. "Bird", vale lembrar, pela época do filme, era também usada como uma gíria para uma mulher jovem ou bonita, mas principalmente no Reino Unido, como me advertiu uma colega no Twitter. Quando Marion pergunta se Norman sai com amigos, ele hesita e diz a conhecida frase: "A boy's best friend is his mother" ("O melhor amigo de um garoto é sua mãe"). Mas, apesar da docilidade e do jeito infantilizado, Norman é perspicaz e nota que Marion, que diz desejar ir para uma ilha particular, foge de algo.


O que considero como um segundo momento da cena ocorre quando Marion o questiona sobre a forma como ele é tratado pela mãe. Ela acabara de ouvir uma discussão acalorada entre mãe e filho. A expressão facial de Norman se altera, ele se torna mais sério. O plano mostra o personagem um pouco mais de perto (um meio primeiro plano, eu diria), quase de perfil e inicialmente no centro da tela, quando ele está mais agitado. Logo depois, Norman demonstra autocontrole e se senta mais relaxado na poltrona, posicionando-se no canto direito da tela (a câmera está parada, é o personagem que se move). Vemos o rosto de Norman de baixo para cima (contra-plongée) e na diagonal, ainda quase de perfil, enfatizando a águia empalhada no canto superior esquerdo como uma espécie de ponto de fuga do plano. 


Devido a essa sensação de perspectiva, ressaltada pelas linhas imaginárias que convergem em direção à águia, olhamos para Norman, mas também para a águia - enorme, com as asas abertas, como se estivesse voando. Agora Norman fala de forma mais confiante, conta de sua relação com a mãe, da morte do pai e do padrasto, como a mãe e esse segundo marido ou namorado abriram o hotel, da doença da mãe... Ele diz que a mãe perdeu tudo após a morte desse outro homem, ao que Marion retruca: "Except you" ("Exceto você"). Norman então tem a fala: "Well, a son is a poor substitute for a lover" ("Bem, um filho é um mau substituto para um amante"). 

Há uma ideia de maior empoderamento do personagem nessa segunda parte da cena, reforçada pelo contra-plongée. Norman, da forma como interpreto, seria a águia armando o ataque contra sua presa (Marion, o pássaro). Norman afirma, ainda, não odiar a mãe, mas sim o que ela se tornou devido à doença.

Em seguida, Marion sugere que Norman coloque a mãe em uma instituição. Aí temos a grande virada da cena, o terceiro momento: Norman se aproxima de Marion, close em seu rosto, que passa a ocupar o centro da tela e quase em posição frontal. Sua fala agora é firme, seu olhar brilhante e ameaçador. Ele repele totalmente a ideia de Marion. Como Norman poderia abandonar  a mãe em uma instituição para loucos? (Até porque, como será visto mais tarde, ele próprio assumira essa persona). O rapaz afirma que a mãe é tão inofensiva quanto os pássaros empalhados na saleta (o que será confirmado depois) e que precisa dele (de fato, a mãe agora existe nele). Ela apenas se descontrola algumas vezes, mas, afinal - e aqui vemos a sua loucura aflorar: "We all go a ittle mad sometimes" ("Todos nós ficamos um pouco loucos às vezes"). 


Ao se despedir de Norman após o lanche, Marion deixará escapar que seu sobrenome é Crane e que voltará para Phoenix. Como Norman confirmará em seu livro de hóspedes, ela havia indicado um nome e um local de origem diferentes, o que o faz ter certeza de que a moça esconde algo. "Crane" em inglês também é o nome de uma ave, um grou. Além de Phoenix também ser o nome de um pássaro mitológico, a fênix, que ao morrer se destrói em chamas para em seguida renascer das próprias cinzas.

Pouco antes do fim da conversa, o rapaz enfatiza a Marion que deve ser chamado de Norman, não de Mr. Bates, como se poderia esperar. Ao que parece, Norman não se vê propriamente como um homem adulto, mas como um garoto. Um garoto que depende da mãe e para o qual qualquer contato com outra mulher é algo interdito. Na primeira parte do diálogo, além da proverbial linha "A boy's best friend is his mother", em dado momento Norman diz que faz pequenos serviços para a mãe, aqueles que ela julga ser ele capaz de executar. O quarto de Norman no casarão, quando Lila Crane (Vera Miles) o encontra mais à frente no filme, é ainda cheio de brinquedos. Antes de levar Marion para o escritório com seus animais empalhados, a moça o convida a entrar em seu quarto com a bandeja de chá, mas ele recua - como poderia ficar a sós com uma mulher em um quarto após o que a mãe havia lhe dito? O detetive Arbogast (Martin Balsam) mais tarde perguntará se Norman dormiu com Marion, o que o deixará perturbado também. Para Norman, qualquer sugestão de contato íntimo com uma mulher parece inaceitável. 

Já li interpretações de que Norman seria homossexual - até por conta do ato de se travestir. Mas discordo desse posicionamento. Acho que ele sente atração física por mulheres, mas reprime esse desejo, porque carrega em si uma outra personalidade, a da mãe. De qualquer forma, Psicose e outros filmes de Hitchcock são um prato cheio para leituras psicanalíticas, como bem observou Luiz Carlos Merten no livro Cinema: entre a realidade e o artifício.


Por todo esse apuro técnico, pelas atuações - principalmente as modulações e sutilezas de Perkins - e as várias chaves de leitura abertas, eu acho essa cena do diálogo entre Norman e Marion brilhante. 

Hitchcock, assim como Stanley Kubrick e Orson Welles, entre outros, fazia bastante uso da perspectiva no desenho dos planos. Por isso, do ponto de vista estético, seus filmes costumam ser tão bonitos. Mas não é apenas o aspecto visual que esses cineastas procuravam: forma e conteúdo andam juntos. Cada escolha na composição dos planos tem um propósito narrativo. Quando a câmera foca em determinado elemento do plano, essa escolha não é apenas plástica, está alinhada à narrativa, tem uma significação e pretende causar um efeito no espectador. E aspectos como esses são o que fazem do cinema algo tão interessante.

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